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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A Caixinha de Jóia

http://www.jornalorebate.com/90/ZHOUXIAOYUN.jpg
Ilustração de Zhou Xiaoyun


No tempo do imperador Hsuan Tsung da Dinastia T´ang na velha China, havia um mosteiro muito antigo de monges Xintoistas. O mosteiro ficava no alto de um penhasco, rodeado por chorões e bambuzais. Logo abaixo do penhasco havia um cemitério. Todos os moradores da aldeia próxima eram enterrados ali. Aconteceu que um dia uma menina da aldeia perdeu toda a sua família em um incêndio. Naturalmente todos foram enterrados no Cemitério da Colina, assim ele era chamado. Foi um fato muito triste para todos da aldeia. Ninguém soube dizer porque toda a família tinha padecido daquela maneira, e o mais estranho foi pensarem que todos tivessem sido mortos; se esqueceram da menina. Seu nome era Peônia, linda como uma peônia rosada. Ela ficou desesperada por não ter mais onde morar e teve uma idéia. Como sabia tocar p´i-p´a (alaúde) pensou em se apresentar no mosteiro, mas tinha um porém, era uma menina e meninas são proibidas em mosteiros. Pensou seriamente e tomou uma decisão. Iria se vestir de menino e pronto: fosse o que Buda quisesse.

Ela se vestiu de menino, penteou-se como menino e foi apresentar-se ao monge mais velho do mosteiro. O monge até que ficou desconfiado da beleza do menino, mas quando viu o alaúde em seu ombro, se alegrou, pois os Xintoístas davam muita importância à música. Eles acreditavam que a música encerrava em seus tons, elementos da ordem celestial que governava o universo inteiro. Para os chineses, o Som Fundamental era inaudível e se achava presente em toda a parte como vibração divina. Peônia foi aceita no mosteiro como ajudante e tocador de alaúde nas horas de meditação. Passou a usar o nome de Han.

Ela era muito discreta e silenciosa, pois achava que assim sendo, ninguém desconfiaria de seu segredo. Como ela era muito bonita, o monge mais velho, querendo preservar o mosteiro de comentários maldosos, pediu para que o ajudante usasse uma máscara, assim ele não poderia ver e nem seria visto pelas pessoas. Peônia era cordata com tudo e assim fez. Passou a usar a máscara. Primeiro quando tinha visitas, e depois durante o dia para se esconder dos jovens monges que estavam ficando perturbados com sua rara beleza. O mosteiro ficava praticamente vazio à noite, quando os monges saíam para fazer visitas aos aldeões do vilarejo. Peônia então, ia até o penhasco que ficava bem em frente ao cemitério e com seu alaúde, fazia o que sabia melhor fazer: Tocava.

Sua música era divinamente bem tocada, até os chorões se curvavam para ouvi-la melhor, o vento suspendia seu suspirar, a lua parava hipnotizada quando ela dedilhava as canções que contavam as estórias dos Imperadores que já tinham morrido.

Numa noite de lua clara, ela foi até o penhasco tocar seu alaúde e começou uma canção que falava do Imperador Tim Tsung pai do Imperador Hsun Tsung. Era a canção do Crisântemo Dourado, a mais linda canção já tocada na China. Ela era muito precavida e mesmo quando estava sozinha usava sua máscara de menino. Sendo assim não viu quando um soldado se aproximou para ouvi-la. Ele ficou tão comovido que começou a chorar. Peônia se assustou e ele pediu desculpas por estar chorando e disse que há muito não ouvia aquela velha canção. Ela se comoveu com o soldado e até pensou em retirar a máscara, mas, ficou ali parada tocando o seu alaúde. O soldado então pediu a ela, se poderia tocar para o Imperador e sua corte. Peônia ficou encantada, mas ao mesmo tempo apreensiva com o pedido do soldado que nem ao menos podia ver.

Como o soldado era insistente, ela aceitou o convite e marcou para a noite seguinte.

E assim ela se preparou em seu espírito para aquela noite na corte.

No mesmo lugar e hora combinados ela esperou o soldado. Como estava de máscara nem percebeu que ele já estava ali esperando. Conduzida pelas mãos do soldado, foi caminhando

cuidadosamente por um caminho que descia morro abaixo. O soldado então a levou até a salão principal. Ali ela ficou sentada em um tatami de penas de ganso. Pegou o seu alaúde e começou a tocar o Crisântemo Dourado. Foi uma noite suprema. Nunca tinha sido tão elogiada e admirada. Serviram-lhe chá de folhas de bétulas e doces caramelados. No fim da noite o soldado levou-a de volta ao mosteiro.

No dia seguinte Peônia estava prostrada, sem forças para fazer suas atividades cotidianas.

O velho monge passou a observar seu pupilo Han com mais cuidado.

Muitos dias se passaram e Peônia foi definhando de cansaço, pois todas as noites ela era levada pelo soldado até a corte para tocar para o Imperador e sua família. Uma noite, o monge que já estava muito preocupado, pediu para um ajudante do mosteiro que ficasse escondido e descobrisse o que acontecia nas noites de Han. E assim, numa noite de lua cheia, o ajudante Kin ficou como se fosse a sombra de Han. Quando os monges saíram para a coleta que faziam todas as noites, Peônia se arrumou, colocou sua máscara, pegou seu alaúde e foi até o penhasco. Kin silenciosamente, espiava tudo o que se passava ao redor de Han. Quando o espectro de um soldado apareceu surgindo de não sei onde, ele quase deu um grito de pavor. Seguiu os dois de longe e, sem entender nada, viu quando chegaram ao cemitério.

Han sentou-se no meio de uma densa neblina e, de repente, luzes diáfanas começaram a pipocar aqui e ali, vindas de lanternas chinesas.

Um palácio começou a se definir aos olhos de Kin. Todos ficaram em silêncio quando Peônia começou a tocar seu alaúde. Kin tremia como um bambu verde e nem ouviu o fim da apresentação, ficando terrificado quando percebeu que todos ali eram fantasmas.

Voltou ao mosteiro correndo como uma lebre fugitiva, nem esperando por Han. Viu o que tinha que ser visto e foi ter com o velho monge assim que ele voltou da aldeia. Como tremia muito e seus dentes batiam sem parar, teve que ser submerso numa tina de água fria. Assim, todo molhado, mas muito mais calmo, começou uma estória de palácios, soldados, corte de imperadores, crisântemos dourados que o monge já estava ficando tonto. Kin só se acalmou quando lhe deram chá de camomila do campo. E assim, mais calmo, disse alto e em bom tom: Han está enfeitiçado por fantasmas do Cemitério da Colina. O monge ficou petrificado. Como isso poderia estar acontecendo com o seu lindo pupilo tocador de alaúde? Tinha que fazer algo imediatamente. Chamou o monge rezador de sortilégios e encantamentos e colocou-o a par da situação. Ele então disse tudo o que tinham que fazer para salvar Han. O falso menino foi chamado e investigado. A princípio Han quis inventar uma estória, mas foi logo desmentido pelo velho monge que disse saber de toda a verdade.

Acontece que nem mesmo Peônia sabia que estava sendo enganada por fantasmas do cemitério. Por causa da máscara, nada via, somente sentia. O monge rezador então disse: Para que você não seja levado definitivamente para aquele palácio fantasma, tem que permitir que eu escreva uma reza em forma de mantra em toda a superfície de sua pele. Isso deixou Peônia deveras preocupada, pois sabia que ele descobriria sua verdadeira situação. Então teve uma idéia. Deixaria se escrever com mantras sagrados por toda a sua pele, menos no santuário da virilha. Sua caixinha de jóias ficaria salva de curiosos.

Foi então, inteiramente envolvida em letras sagradas que a protegeriam do chamado do soldado fantasma. Quando caiu a noite, ela se preparou como o monge havia explicado: sentou-se silenciosamente em estado de meditação, nua e com o alaúde a sua frente, pousado no chão. O soldado veio na hora de todos os dias. Chamou pelo menino e não obteve resposta. Olhava, olhava e nada via, somente enxergava o alaúde recostado e uma espécie de borboleta muito branca. O mantra deixava invisível quem o tivesse escrito na pele. O soldado ficou sem saber o que fazer. Como voltaria para o seu imperador sem o menino tocador de alaúde? E para provar que tinha vindo realmente buscar o menino, apanhou o alaúde e a borboleta.

Peônia, não podendo gritar sem se denunciar, chorando de dor deixou que lhe arrancasse sua caixinha de jóias.

Quando o fantasma foi embora o mosteiro inteiro ficou numa revolta total. Peônia não teve como esconder o seu segredo. Chorando de dor e vergonha pediu ao monge que a ajudasse. Ele então ordenou que todos rezassem para a paz dos fantasmas e que o soldado devolvesse a caixinha sagrada e o alaúde à pobre menina. Ficaram toda a noite rezando mantras sagrados e na manhã seguinte encontraram a caixinha e o alaúde exatamente no mesmo lugar em que tinham desaparecido. Desse dia em diante Peônia começou a receber visitas de nobres da província que queriam conhecer a menina que sabia tocar o Crisântemo Dourado. O mosteiro enriqueceu com as oferendas doadas pelos nobres e a menina Peônia, feliz com sua arte e sua caixa de jóias de volta, pode viver no mosteiro usando máscara de menino até o dia em que recebeu um pedido de casamento do filho do imperador.

1 Comentários:

  • Raquel! Você soube preservar a magia da doçura neste mundo tão amargo. Você sobreviveu às Agências de Publicidade e eu aos Bancos. Vamos nos sentar à beira de um rio, ver as águas claras passarem, e rir muito disso tudo? Continuo um dependente de teus poemas e trabalhos! Bjos

    Por Blogger The Magic of Every Moment (A Magia do Momento), às 19 de outubro de 2007 00:19  

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