.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Filho


 Tela de Oleg Duryagen



Ia a galope, trincando de frio e impaciência. Tinha recebido a missão do próprio General Tibério - atocaiar o bando de Claudionor e pôr fim nas atrocidades causadas pelos facínoras, que estavam pondo de ponta cabeça a província de Castro Cascudo. O recado do General era bem claro: acabar com o bando, mas principalmente, com um tal guri marmoteiro, que valia mais de trezentos diabos. Eu dava graças a Deus por meu filho estar protegido, estudando com os padres. Ela era o meu xodó. Menino valente que só se vendo. Teimava em ser soldado, mas não deixei não. Soldado bastava eu na família. Internei-o a contra gosto no colégio dos padres. Pelo menos, ali, ele estaria estudando e seria, quem sabe, um doutor.


Eu já era um caso perdido. Entrei para o exército porque meu pai fazia gosto. Eu mesmo detestei cada dia passado com aqueles brutamontes.
Nunca necessitei mostrar valentia. Gostava de ficar no acampamento, longe das pelejas. Que se esfolassem sem mim, pensava. Bravura é para quem quer se mostrar, e tem que garantir exemplo para os que tremem dentro das calças. Digo aos meus camaradas que a morte é uma sujeitinha desgraçada, e que te ronda o tempo inteiro. Principalmente, quando tua espada te resguarda dos desafios dos outros.

Eles, os soldados da minha guarda, foram advertidos para tomar tenência a menor poeira levantada pelos encapetados do Claudionor.
Não passou muito tempo, o olheiro, que eu tinha escalado pra ficar de vigia no descampado em que se mocozava o inimigo, desembestou pelo acampamento aos berros.  O Claudionor levantava acampamento rumo à província. Sob a proteção de São Patrício juntei minha gente e  rumamos para a tocaia desse desafeto do governo.

Matar é algo que transcende a nossa vontade. Tu te tornas Deus, e nada mais pesa em tuas mãos, a não ser o júbilo. A espada brilha enquanto cabeças são atiradas ao vento, como pássaros do inferno. A vida no campo de batalha é fugaz. Os deuses estão sentados, vigiando os cadáveres que seguem em fila, fatigados e transpassados de medo, buscando a porta para o desfecho do juízo final.

No meio da gritaria e bater de espadas, a sangueira derramava. Eu procurava o tal guri endiabrado, que fazia questão de deixar bem claro  que era mau, azedo e esfolador. Todos se pareciam no meio daquele tropel desgovernado. Porém, no meio dos gritos de fúria da gentalha que se engalfinhava comendo pó e gravetos, vi, através de um clarão entre o véu de poeira, um rosto de menino, sujo e lambuzado de sangue quente.  Eu estava atiçado de ódio e vaidades de homem bruto. Imaginava que, só pelo fato de matar aquele menino destemperado, me tornaria o manda chuva do General Tebério, talvez, quem sabe, divinizado como valentão e como premio receberia uma gorda aposentadoria.

No meio da correria e dos solavancos que vinham por todos os lados, eu vi o meu futuro, como uma revelação. O que veio pela frente me transformou para sempre, em alguém cheio de horror e impotência, mostrando que minha maneira de ser - modesto, comedido, sempre me esquivando das guerrilhas - nada mais era, do que um jeito de esconder meu lado mau de lobo sanguinário.



O bando de Claudionor era conhecido por abarcar homens destemidos e valentes. Lutavam por justiça e uma vida digna para o povo. Eu estava do outro lado, apoiando a causa do governo, mas sabia que, mais dia, menos dia, eu teria que medir com mais apuro as minhas ideias sobre o que era certo e errado naquela província escravizada pelos Coronéis, donos das terras.

Eu te digo que aquele último homem que matei escureceu a minha existência. Vi, em seus olhos de menino, o sonho das conquistas, e, em mim, a derradeira recordação de um ato sem tradução. Seu sorriso sereno e calmo me alcançou antes que minha espada lhe arrancasse a cabeça do corpo. Ele veio ao meu encontro expressando confiança, e antes de articular a palavra pai, a eternidade o havia alcançado.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Como num Sonho

Tela de Magritte




Há dias, tenho visto sombras incompreensíveis se erguerem ao meu lado. Finjo não as ver, mas sinto uma melancolia tão grande, tão profunda, que o meu sangue chega a gelar. Digo a mim mesmo que isso não significa coisa alguma, que é apenas mais uma das artimanhas de minha imaginação.

A cada dia, sinto minha alma sendo soprada por uma solidão abismal. Coisas inexplicáveis têm me acontecido ultimamente. Agora mesmo, estou nessa loja de departamentos. Há mais de uma hora, encostado nesse balcão, tentando achar uma gravata para ir ao casamento de minha irmã, e ninguém se dirigiu a mim perguntando se preciso de ajuda. No mês passado, quando vim comprar cuecas, a atendente veio cheia de sorrisos e gentilezas, e me mostrou a loja inteira.

Sinto-me perdido, como se estivesse vagando num deserto. À noite, ouço os mais sutis sons do mundo. Invoco aos anjos, uma proteção, e sinto meu sangue se inflamar, tenso. Nada acontece, só a escuridão permanece inalterável.

Ontem, sonhei que entrava num bosque de árvores antigas, e atrás de cada uma delas, havia uma pessoa me observando. O chão era transparente e eu podia ver pessoas vivendo lá embaixo, como num vendaval. As árvores desapareceram e só ficou um campo gramado,  cheio de sapatos perdidos. Acordei com alguém me chamando. Parecia a voz de minha mãe. Depois a ouvi chorando, enquanto rezava. Para dizer a verdade, tenho a impressão de estar o tempo inteiro dentro de um sonho.

Hoje estive naquele restaurante chinês, que fica aqui em frente ao meu prédio. Enquanto esperava a minha vez de ser atendido, fui literalmente  ignorado. Estava me sentindo um idiota. A velha chinesa, dona do lugar, gesticulava com o cozinheiro dando ordens e ordens, sem se importar comigo, ali parado, esperando. Nervoso, me virei, de repente, para sair do lugar e esbarrei num arranjo de flores, que foi de uma ponta a outra da mesa. As pessoas que estavam nas mesas em torno, olharam com espanto. Pedi desculpas e sai do restaurante bem chateado. Fui para o meu apartamento esquentar uma pizza congelada.

Quando entrei na sala, levei o maior susto. Costumo deixar as minhas coisas em desordem enquanto trabalho tudo esparramado pelo chão, e em cima da mesa. É o meu jeito de encontrar o que eu preciso, sem ter que ficar vasculhando pilhas de papeis com anotações. Bem, a sala estava completamente limpa e organizada, como nunca esteve. Até o pó foi aspirado e as cortinas, que sempre ficam fechadas, agora estavam abertas. Pensei que, talvez, a minha irmã tivesse estado ali, e com sua mania de limpeza, havia feito a festa. Até flores num vaso ela deixou. Senti-me ilegal dentro de minha própria casa.

Começo a desconfiar de todos agora. O porteiro, que sempre foi gentil comigo, quando saí do prédio, fingiu não me ver quando passei pela portaria. Vi minha irmã entrando num táxi e gritei seu nome. Queria agradecer a arrumação do apartamento, mas ela entrou no carro sem ouvir os meus gritos. Ou ela ficou surda, ou não sei mais de nada.

Às vezes, penso em dormir e nunca mais acordar. Tenho sentido um frio aterrador, principalmente à noite. Deixo o aquecedor ligado, mas de nada adianta. Devo ter pegado uma virose fenomenal. Amanhã vou ao meu médico ver isso.

O que mais me impressiona é esse silêncio a minha volta. Não tenho escutado nada, nenhum ruído. Às vezes penso estar ouvindo uma canção, mas sinto que é só dentro de minha cabeça. Estou doente, essa é a questão.

Agora mesmo, quando entrava no hall de meu apartamento, ouvi perfeitamente um grito de dor e desespero. Parecia a voz de minha mãe me chamando. Entrei aos tropeções pela sala e você não vai acreditar. Não havia viva alma ali. Silêncio absoluto. De repente um nevoeiro saiu da porta de meu quarto, me cobrindo. Ouvi vozes abafadas e acho que desmaiei. Na queda bati com a cabeça na mesinha de mármore. Por incrível que pareça, quando acordei do desmaio, passei a mão na cabeça procurando o galo, e nada, nem galo, nem dor. Começo a rir de mim mesmo. Acho que estou ficando doido.

Tentei marcar uma hora com o meu médico, mas, por mais que eu articulasse as palavras, a maldita assistente dizia que não estava conseguindo me ouvir. Desisti do telefone e resolvi ir sem marcar hora. Sempre tem desistência e eu pediria um encaixe. Chegando ao consultório subi correndo os dois lances de escada. Cumprimentei a assistente e pedi, se possível, que o doutor me atendesse com urgência, pois estava me sentindo muito mal. Ela olhava para mim com a cara mais lavada do mundo. Não mexeu um dedo sequer para discar para avisar que eu estava ali. Somente quando eu me sentei e peguei uma revista da mesinha, ela deu sinal de vida e saiu quase correndo para a sala do médico.

Ouvi-os discutindo. Pensei: “Ela deve estar tentando me encaixar, é isso”. Mas, que nada. O que aconteceu foi que os dois saíram da sala com os olhos arregalados. Olharam-se, depois foram até o corredor, espiaram, foram até o banheiro, a cozinha, em seguida, cada um voltou a seus postos. Imaginei que seria chamado em seguida. Tinha que ter paciência. Peguei outra revista e como já a havia lido, joguei-a sobre a mesinha. A assistente deu um pulo, pegou a sua bolsa e saiu correndo para a rua. Isso me deixou bem nervoso. Nunca vi tanta falta de respeito para com um paciente.

Esperei mais um pouco, e já bem chateado com a demora, bati na porta e fui entrando. Ele estava escrevendo em uma ficha e nem se dignou a me olhar. Esse estado de surdez das pessoas devia ser um surto mesmo. Pelo jeito, eu teria de ficar ali plantado por um longo tempo, pois ele estava mais interessado naquela ficha.

Mesmo sabendo que ele não estava prestando atenção em mim comecei a falar dos problemas que me afligiam. Eu falava e falava e ele totalmente indiferente. Não suportei mais e me sentei na cadeira giratória em frente a sua mesa. Quase fora de mim falei bem alterado: “Mas o quê é que está havendo por aqui, posso saber? Sempre fui bem atendido, e agora isso. Nem sequer me olham na cara. Sua assistente endoidou lá na recepção. Acaba de descer as escadas, acho que pelo corrimão. E o senhor, francamente, parece que se alienou por completo nessas fichas”.

Ele continuava mudo. Devia ser de propósito. Só para me irritar. Não aguentei mais e dei um murro na mesa, o que fez o porta-lápis voar longe se espatifando na estante de livros. Bem, posso te garantir que foi um susto e tanto que eu dei a ele, pois pulou da cadeira e foi se esquivando de costas, completamente apavorado. Eu fiquei ali, sem saber o que fazer. Esperei um pouco para ver se ele retornava e enquanto esperava dei uma espiada na maldita ficha que ele tanto olhava.

Era uma ficha de paciente, com todos os dados de todas as consultas. Um resumo das doenças, coisa e tal. O que me deixou sem chão foi ler o meu nome na ficha com o motivo de minha morte.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Fusquinha Amarelo


 Tela de Nicoletta Tomas Caravia



Uma vez, apareceu no meu bairro, no silêncio da tarde, um fusquinha amarelo dirigido por um sujeito estranho. Ele costumava fazer suas aparições na saída das escolas, aterrorizando tudo que tivesse perna e andasse mostrando sua genitália, que era nada mais, nada menos, que algo parecido com um taco de beisebol. Não tinha mulher no pedaço que não tremia, só de ouvir falar sobre o fusquinha amarelo. Ele atacava desde menina donzela à velha com aranha na telha, e até menino com feições delicadas. Numa dessas aparições sinistras, em que a baratinha amarela rodava pelo bairro, despencou uma tremenda tempestade, justamente na hora em que as mães saíam para buscar os filhos nas escolas. Foi nessa bendita hora, em que Maria Imaculada subia a ladeira, na direção à escola, que o fusquinha surgiu de repente.

Ela já estava com a saia toda molhada e a blusa branca mostrava os bicos dos seios durinhos de frio. Corria tropeçando na calçada, procurando andar rente aos muros, para não se molhar ainda mais. Foi quando ela teve a surpresa da tarde. Quem ela vê?  Um fusquinha amarelo parado no acostamento. Bem, acontece que a Ritinha, sua amiga e vizinha, também tinha um fusca amarelo (acho que era a cor do ano, pois as mulheres estavam enlouquecidas por essa cor. “Graças a Deus!” pensou ela e  foi batendo na janela do fusca freneticamente. Olhava para dentro do carro tentando ver a Ritinha, mas com vidro todo embaçado, não enxergava nada. Então, esperou que a porta se abrisse.  Assim que isso se deu, despencou para dentro do carrinho. Foi logo dizendo: Que chuva amiga! Olhou pelo canto do olho e endureceu-se toda, como se tivesse recebido um choque elétrico.

Claro que não era a amiga, e sim tarado do fusquinha amarelo. Ela pensou: “Ai meu deus do céu, é o taco de beisebal”. Ele, magrinho, branco como sulfite novo, agarrou a mão da Maria Imaculada e meteu-a no endurecido taco. Ela pensou em desmaiar, em gritar, mas quem disse que a voz lhe saia. Os olhos não desgrudavam daquilo tudo. Foi quando ele lhe pediu desculpas por tudo aquilo e implorando, quase chorando, segurou a mão dela e foi, bem devagar. se masturbando. A mão dela em baixo e a dele em cima. A Maria Imaculada  estava paralisada, é claro! Se respirava? Acho que de vez em quando! Aquilo durou uns dez minutos. Enquanto ia tomando fôlego, pensava: “Acalme-se Maria Imaculada, você já fez isso em seu marido e não foi uma e nem duas vezes, porque vai ter chilique, justo agora que Deus coloca em suas mãos um monumento desse tamanho?” O marido que a desculpasse, mas um dia ela teria que saber que o taquinho dele iria ser confrontado.

 E ela foi ficando, ficando, até que acabou gostando daquele vai e vem. Tomando gosto pela coisa, se entusiasmou e quis mostrar a ele como é que se podia tirar proveito de um taco tão grande e caiu de boca no divino.  Eu diria que aquilo virou uma apoteose, totalmente descontrolada. A situação esquentou de tal maneira que nem o sutiã e a calcinha, depois que as coisas se acalmaram, se achavam naquele fusquinha amarelo. Maria Imaculada estava desfraldada, mas completamente feliz.

Acabaram marcando um encontro num lugar mais reservado. Dai para frente, ela não me contou mais nada. Acho que não quis dividir aquele sorriso que estampava na cara com mais ninguém.
Anos mais tarde, eu soube que ela estava casada com o taco de beisebol. Perguntei-lhe se não teve medo daquele momento. Ela me disse que, a princípio sim, mas depois, vendo o desespero do rapaz que, com aquela ferramenta enorme, não conseguia manter relacionamento sexual com ninguém, se deu em sacrifício.

domingo, 9 de outubro de 2011

Rádio Triângulo dos Mineiros


 Tela de Guido Vedovado



Prezados ouvintes, aqui estamos mais uma vez com o programa preferido das suas tardes, “Pedacinhos do Céu”, sempre às 16 horas em ponto.

Está no ar nossa ouvinte convidada, dona Arlete, da cidade de Camanducaia.

- Alô dona Arlete! Como vai a senhora?
- Agora estou bem, sim senhor.
- Conte-nos sua história, por favor. Os nossos ouvintes estão ansiosos para ouví-la.

(Abaixa o som)

- Pois é, tudo aconteceu num sábado, dia em que tenho folga lá do colégio onde trabalho. Sou professora, graças a Deus, sim senhor. Pois bem, eu e minha mana Arlinda, e o seu afilhado, o Alex, fomos ao Parque Nacional de Monte Verde, aquele que fica na reserva florestal. Chegamos por volta das 14 horas, não tinha muita gente entrando naquele momento. Pagamos a entrada, e a Arlinda achou um absurdo cobrarem vinte reais só pra ver mato e passarinho, mas acabou pagando. No caminho, que era uma trilha de cascalho e um bambuzal de cada lado, vimos um armazém, desses que vendem de tudo um pouco, até sela para cavalo tinha. A Arlinda falou que queria comprar umas coisinhas pra comer e beber antes da gente seguir para o nosso passeio. Eu fiquei tirando fotos do local, enquanto ela e o Alex foram às compras.

Quando dei por mim, já tinha se passado mais de quarenta minutos, e eles não tinham voltado. Guardei a máquina fotográfica e fui atrás deles. Entrei no armazém, e não vi ninguém. Chamei pelo dono batendo palmas. Apareceu um senhor de barbas brancas e macacão jeans, todo surrado, limpando o bigode sujo de açúcar mascavo. Perguntei-lhe se uma moça parecida comigo e um menino de uns seis anos, bem queimadinho, tinha vindo comprar petiscos. Ele confirmou, mas disse que já tinham ido embora há uma meia hora. Levei um susto e disse com cara de espanto: “Meia hora?” E ele disse me olhando já preocupado: “Não marquei o tempo”. Insisti perguntando: “Será que estão no toalete?”, e ele disse que não, pois não tinha dado a chave, pois que o banheiro ficava sempre trancado. Saí de lá, mas fiquei parada na frente do estabelecimento, olhando pra tudo que era lado, pra ver se os via em algum lugar. Minha irmã sempre teve essa mania besta de se esconder, e deixar a gente procurando por ela. Não sabia pra que lado ir, e pensava: Onde a esperta da Arlinda tinha se metido? Nisso, se passaram mais uns vinte minutos. Voltei ao armazém, o que assustou o senhor, que já estava sem jeito com tantas perguntas. Perguntei se ele tinha atendido mais alguém além da minha irmã, e ele disse que não, que naquele horário não vinha quase ninguém, porque era o horário do almoço. Saí novamente, mas antes de colocar o pé na calçada, ele me chamou, dizendo: “Acabo de me lembrar que o único que esteve aqui, na mesma hora, foi o Chicão, o rapaz que vem buscar restos de comida para dar aos porcos. Ele tem um chiqueiro enorme perto do rio”.
Apontou com o dedo a direção do rio e entrou. Tive um mau pressentimento quando olhei para o dedo dele, apontando o chiqueiro no ar. Ele entrou, e eu fui à direção apontada por ele. Nem sei porque fiz isso, mas alguma coisa me empurrava para lá. Andei uns quinhentos metros por uma estradinha de terra batida, quando avistei, ao longe, uma casa de madeira e um enorme galpão, que deveria ser o tal chiqueiro.

Não fiz nenhum barulho para chegar perto da casa. Dei a volta, sorrateiramente, e espiei pela janela da frente. Vi um homem reclinado num sofá imundo. Estava com um boné sobre os olhos, descansando. Com muito cuidado, dei a volta e fui até o galpão, rodeando pelos fundos, para que ele não percebesse nenhum barulho e nem pudesse me ver. Tinha uma pequena janela. Abri a veneziana com cuidado e pulei pra dentro do galpão. O cheiro era insuportável. Tinha lixo por todos os lados, muitas caixas com restos de comida, que cheiravam azedo. Atrás de uma pilha de caixotes, encontrei o chiqueiro. Várias fileiras de engradados, cada uma com uns vinte porcos. Todos grunhindo a espera de comida. De repente, entrou uma pessoa carregando um enorme balde com restos de comida. Vocês não podem imaginar o que eu vi. (começa a chorar e a locução é interrompida).

- Caros ouvintes, como podem perceber, o momento é de grande emoção, por isso faremos uma pausa e pedimos os comerciais, enquanto nossa ouvinte convidada possa se recompor.

Nossos patrocinadores, o Chocolate Monte Verde, que amadurece na boca, e a Malharia Gato Malhado, a mais quente moda em tricô do mercado, agradecem a preferência.


- Caríssimos ouvintes da Rádio Triângulo dos Mineiros, estamos de volta com mais uma história emocionante, desta vez, com dona Arlete e sua irmã Arlinda.

(música abaixando)

- Música para ela sonoplastia!
(música de fundo) http://www.youtube.com/watch?v=G6dLjcSSAjY&NR=1

- Então, dona Arlete, o que foi que a senhora viu chegando no chiqueiro que a deixou tão transtornada?
- Vi a minha irmã, Arlinda. Estava só de calcinha, e mais nada.
- Minha nossa, dona Arlete! E aí?
- Aí que, além de estar só de calcinha, estava com uma corrente prendendo os tornozelos. Ela andava com muita dificuldade. Quando me viu, arregalou os olhos e fez um sinal para que eu ficasse em silêncio. Estava com um enorme balde nas mãos, cheio de restos de comida que levava para os porcos. Ela me chamou num canto e disse rapidamente, entre sussurros, que o homem era completamente doido. Quando ela saiu do armazém com as compras, ele a abordou dizendo que estava com a esposa no caminhão e precisava de uma ajudinha pra tirá-la da cadeira de rodas. Ela foi sem pensar duas vezes. Quando chegou perto da porta do caminhão, ele pôs um lenço com alguma coisa estranha, que a fez ficar tonta. Acordou na casa dele, já sem roupa, e viu a Alex deitado num canto, com as mãos amarradas, e os olhos e a boca vendados. Ele disse que ela ia ser bem boazinha com ele, senão ele jogaria o menino aos porcos. Ela ia ajudá-lo a alimentar os porcos até a mulher dele ficar boa, mas ela achava que não existia mulher nenhuma, que o cara era completamente pirado. Eu fiquei perplexa, e olhava para todos os lados, procurando um jeito de tirá-la dali. Ela disse, quase chorando: “Não saio daqui sem o Alex!”. Acalmei-a e disse que iria até o armazém pedir socorro.


Pulei a janela de volta e fui me esgueirando por trás da casa. Quando cheguei à estradinha, corri, corri como uma alucinada. Entrei no armazém, já derrubando uma pilha de latas de sardinhas. O velho saiu de trás do balcão com uma espingarda apontada para mim, dizendo: “Eu sabia que a senhora era encrenca! O que foi agora? Tem incêndio na floresta?”. Eu estava sem fôlego de tanto que tinha corrido. Queria falar, mas não conseguia, aí ele abaixou a espingarda e me deu um copo com água. Eu pedi desculpas pela bagunça, e disse que precisava chamar a policia imediatamente. Ele me olhou assustado e correu para o telefone. Nem perguntou porque, e chamou a Guarda Florestal, porque estavam mais perto. Enquanto os guardas não chegavam, eu contei rapidamente sobre o Chicão, e o que ele tinha feito. Ele deu um tapa na cabeça e disse: “Eu sabia que esse cara um dia endoidava de vez. O pai dele era um carrasco e bateu nele desde quando ele era um molequinho. A mãe morreu de parto, e ele cresceu sozinho com o doido do pai. Depois que o pai morreu, ele se casou, mas não deu certo. A mulher, um dia, passou por aqui correndo. Estava só de calcinhas, a coitada. Minha mulher deu a ela um vestido velho e um chinelo. Ela chamou um táxi e se mandou, nunca mais apareceu. Vai saber o que acontecia por lá, não é? Eu respondi: “Agora sabemos”.

Não deu dez minutos e os guardas chegaram. Eram três, e foram logo perguntando: O que foi amigo? O que houve? O vendeiro foi dizendo tudo o que eu tinha contado, mesmo porque eu tremia tanto, que nem conseguia falar direito. Percebendo a gravidade da situação, pediram ao velho que chamasse a policia da cidade e uma ambulância. Enquanto isso, eles iriam dar uma batida no local da ocorrência. O velho disse: “Tenho uma ideia melhor para não despertar desconfiança do Chicão. Ele é muito esperto, e pode perceber que vocês estão lá por causa da moça e do menino, e fazer alguma besteira. Eu vou junto com a desculpa de levar mais comida aos porcos, e ele, que eu saiba, confia em mim, e nem vai se dar conta da armadilha. Minha velha pode muito bem chamar a policia e a ambulância”. E saiu para providenciar a comida e falar com a mulher, que ficava lá dentro, nos fundos do armazém.

Na verdade, ele não tinha restos de comida, e sim a comida da geladeira que iria jantar com a mulher, mas deu o seu jeito. Encheu um latão com jornais, quase até a boca, em seguida, a comida. Disse: “Perfeito!”, e entrou na viatura dos guardas, que era uma Rural camuflada. “Vamos, vamos, antes que aquele esmorfético acabe por fazer uma besteira maior ainda”. Quando chegamos, ficamos escondidos no meio do mato, enquanto o velho batia na porta da frente da casa, carregando o latão de comida. Ele fingia que estava muito pesado quando o colocou no chão para bater palmas. O Chicão apareceu à porta ainda assonado, esfregando os olhos e ajeitando o boné, e perguntou o que estava acontecendo. O velho, mais que depressa, disse que não era nada, apenas tinha se esquecido de mais um latão de comida, e como era sábado e só abriria na segunda, aquilo tudo ia azedar. e dava dó. Só isso mesmo! O Chicão olhou o velho, coçou o queixo e abaixou pra pegar o latão. Nessa hora, ele foi dominado pelos guardas. Ficou se debatendo que nem um doido. Dizia que era um homem honesto, que nunca havia feito mal a ninguém, e choramingava para que o soltassem.

Eu, enquanto acontecia à prisão do Chico, corri, e entrei na sala da casa e achei o Alex todo encolhidinho. Desamarrei o coitadinho e tirei o pano da boca e olhos. As roupas de minha irmã estavam jogadas num canto. Juntei tudo e corremos, eu e o menino, para o chiqueiro. Um dos guardas nos seguiu e não acreditou quando viu minha irmã naquele estado. Ele quebrou a corrente e eu vesti a Arlinda, que estava em estado de choque. Saímos de lá para a nossa casa, abraçadas ao Alex. Depois, eu soube que a mulher dele tinha fugido, porque ele queria fazer com ela exatamente o que tinha feito com a Arlinda. Os porcos ficaram para o velho vender no armazém, e o Chicão, vai amargar uma boa temporada na cadeia. Essa é a minha história.

Caros ouvintes da Rádio Triângulo dos Mineiros, acabamos de ouvir nossa ouvinte convidada, dona Arlete, com seu fantástico relato. Amanhã, não percam mais uma história da vida real. Um homem que se casou, sem saber, com a própria filha.


- Até o próximo encontro, caríssimos ouvintes da Rádio Triângulo dos Mineiros. Quem vos fala, todas às tardes, é esse mineiro já cheio de saudades, Salomão do Reisado, ao seu dispor.

(Entram os patrocinadores)

Condenados à Felicidade


Ilustração de Kael Kasabian



- Sabe a Clarinha, irmã da Dulce, que se matou o ano passado?
- Sim, me lembro! Aquela que tomou remédio pra dormir e enfiou um saco de plástico na cabeça?
- Essa mesmo. Você acredita que ela vai se casar com o filho do pastor Hans?
- Não me diga uma coisa dessas, menina! E eu que estava arrastando uma asa pra ele. E foi assim, de repente?
- De repente uma ova! Eles estavam num “lovi” desde aquele passeio de jovens, da Congregação de Fiéis do Sétimo Raio Celeste.
- E o pastor já sabe que o Elizelzinho e a Clarinha estão juntos? Você sabe que o pastor alemão não vai com os bofes da Clara, não sabe?
- Sim, sei, mas aconteceu!
- E como foi? Você sabe?
- Nem lhe conto nega, foi amor a primeira mordida! O Elizeuzinho e a Clarinha, no dia do passeio que, aliás, foi um fiasco, se afastaram do acampamento e se mocozaram perto da cachoeira. Você sabe como o pastor é obcecado em separar os sexos nesses encontros de jovens. O cara vê maldade em tudo. Quer ver o filho casando virgem. Depois que a dona Bavária, mulher dele, fugiu com o sacristão Edmundo, ele endureceu na criação do menino.
- E os pombinhos?
- Bem, eles não foram parar na cachoeira pra tomar banho, isso é que não! Foram pros finalmentes, isso é que sim! Acontece que um dos tutores, o Lindalvo surtou.  Acho que você conhece o figurinha?
- Aquele pitbull? Conheço sim. Odeio aquele cara dissimulado!
- Pois o desgraçado foi atrás dos dois! Ao invés de chamá-los e alertá-los, ficou de tocaia, anotando tudo.
- Que nada, ele deve ter ficado é se masturbando, aquele tarado. O cara tem vinte dedos nas mãos e duas línguas. Esqueça essa múmia e conte dos pombinhos.
- Bem, antes de lhe falar dos ‘pombetos’, quero contar outra muito boa. Sabe o Carlinhos, o gorducho, filho da dona Alzira, a cartomante?
- Sei.
- O filho da mãe seguiu o Lindalvo e ficou escondido atrás de uma árvore, e pôde ver tudo o que se passava. Como você acha que eu fiquei sabendo de toda essa história?
- Ah, foi o fofoqueiro do Carlinhos? Só podia ser ele mesmo! Termine de contar a cena da cachoeira.

- Eles se atracaram, nus como duas enguias alucinadas, e fizeram um amor tão espetacular, que deixou o Lindalvo se mordendo todo. O danado ficou com tanta inveja, que saiu correndo pra contar ao pastor Hans.
- Puxa saco invejoso! E aí, e o pastor?
- Ficou sabendo, é claro, e, em seguida, saiu desembestado para a cachoeira, atrás do Elizeuzinho. Ele e o cabeçudo do Pitbull Lindalvo. Chegando lá, os encontraram galopando como dois selvagens. Dava pra ver a baba escorrer da boca do pastor, de tanto ódio, ao ver o filho subindo e descendo da potranca.
- O pastor deve ter sentido é inveja daquilo tudo, isso sim. Tudo isso é de arrepiar.
- Arrepiar? Eles estavam paralisados com a cena. Ver o casal gemendo e se contorcendo dava desespero. A Clarinha, toda achatada, asfixiada pelo Elizeu, gemia: “Ah, entra em mim! Mais fundo, isso, mais fundo!”. Ele agarrava as coxas dela com força, agradecendo por ser o primeiro. Ela delirava sentindo o sêmen quente e ácido, se esparramando dentro do seu ventre úmido e quente. As línguas se sugando num espantoso encontro e as mãos dela agarrando o pênis sólido e do tamanho exato de seu desejo, estrelas transfiguravam seus rostos em êxtase.
- Para, para, que eu já estou excitada! Essa última parte aí, você deve ter lido em algum conto da Rachel Moraes, não é?
- Mais ou menos... Fiz uma adaptação. Pois saiba que foi assim, excitados, que ficaram o pastor alemão e o pitbull Lindauvo.
- Não se esqueça do Carlinhos atrás da árvore!
- Que nada! Ele estava firme, só anotando o desempenho daquilo tudo. Não sabia se olhava pros pombos ou pros cachorros loucos. Os dois homens olharam-se totalmente descontrolados, e sem saber nem como, nem por quê, se atracaram ali mesmo como duas feras, numa fúria bestial. Os dois, com um só pensamento: ‘de que só se vive uma vez’. Numa fração de segundos, suas roupas foram arrancadas, e ali no meio dos gravetos, o Lindauvo se ajoelhou para receber as estocadas no rabo. O pastor gritava de prazer: “Glória Deus nas alturas!”.  Aqueles dois gemiam mais do que o coral das pastorinhas. “É o murmúrio do sangue, louvado seja Deus!”, dizia o pastor e socava o rabo do Lindalvo.
- Essa parte você deve ter tirado do Nelson Rodrigues, né amiga?
- Você não perde nada, hein? Bem, foi nessa luxúria desenfreada de gritos de prazer do pastor e de dor do Lindalvo, que os pombinhos ouviram e vieram ver a inenarrável e dantesca cena do pastor alemão comendo o pitbull.
- Você está de brincadeira, né?
- De jeito nenhum, amiga, é a pura realidade.
- E como eles ficam?
- Oras, ficando! Aquilo se espalhou como o vento pela boquinha santa do Carlinhos. Eles não tiveram vergonha de confirmar. Assumiram tudo.
- Quem diria, hein? O pastor, cheio de hipocrisias, provou do próprio veneno.
- O pastor e o Lindalvo estão vivendo agora na maior felicidade.
- E os pombinhos?
- Se casam agora em setembro. Todos da igreja estão convidados.
- Amiga, eu custo a acreditar!
- Pois acredite, a vida é assim, cheia de surpresas. O pastor disse ao filho que sua vida estava sem oxigênio. Agora não, tudo eram nuvens de algodão. Tudo certo, a não ser pelos telefonemas que eles andam recebendo de madrugada.
- Quais telefonemas?
- Eles não sabem. O Elizeu comentou com a Clarinha, e ela me contou que, todas as madrugadas, o telefone toca na casa deles, e só se ouve uma respiração atormentada, que mais parece uma briga de cachorro louco.

sábado, 6 de agosto de 2011

O Desconhecido


Tela de Zdzislaw Beksinski


Desci do avião apressada e fui direto ao setor de bagagem apanhar minhas malas. O aeroporto Roissy ficava uns bons quilômetros de Paris e eu ainda tinha que passar pela Galerie Roy Sfeir. Minha primeira exposição em Paris tinha de ser perfeita. Assim que estava para pegar um táxi, meu marchand ligou avisando que a tela “O desconhecido” havia desaparecido. Justamente essa tela, a que eu mais gostava. Pintá-la tinha sido uma coisa bem estranha. Sonhei com esse desconhecido e tive que pintá-lo de imediato. Nem era para essa tela estar nessa exposição, pois foi pintada em cima da hora, mas por causa do sonho, fiz o impossível para incluí-la na mostra.

O sonho foi como uma premonição, dessas que não te deixa parar pra pensar. Eu estava em Paris e visitava algumas galerias de arte, quando vi, refletido na vitrine de uma das galerias, um homem alto, moreno com grandes e expressivos olhos verdes. Estava vestido de preto e uma longa capa o protegia. Percebi que ele não estava olhando à vitrine, mas sim, a mim. Virei-me e o encarei fazendo uma expressão de pergunta com a cabeça. Ele baixou os olhos e me pediu desculpas pelo atrevimento. Disse que gostaria de me mostrar algo. Mostrou-me um pedaço de papel amarelado e sujo, onde estava escrito com letras tremidas um endereço. Eu conhecia o lugar, era de uma loja de molduras de gesso. Eu já estivera nesta loja, justamente por causa das belíssimas molduras. Quando ele me passou o papel, levantou os olhos, sorriu e me pediu ajuda dizendo: “Por favor, estou sufocando, não sei quanto tempo ainda vou agüentar”. Acordei transpirando e a apavorada. Sentia o contato do bilhete entre os meus dedos, mas ele já não estava mais ali, tinha ficado no sonho. Assim que me levantei fui preparar uma tela para pintá-lo. Confesso que foi um dos meus melhores trabalhos. O rapaz era muito expressivo e com certeza, eu havia capturado a angustia que ele carregava na alma.

Saí do aeroporto e procurei um táxi para me levar ao hotel. Foi quando eu o vi parado perto de um café, do outro lado da rua. Olhava-me aflito, como se quisesse falar algo. Eu quis atravessar a rua para ter com ele, mas não podia abandonar as malas na calçada. Fiz sinal para um táxi que se aproximava e quando me virei para pedir que esperasse, ele não estava mais. Depois disso, durante a viagem até o hotel, eu tremia sem controle. O motorista me perguntou se eu estava me sentindo bem, o que respondi que achava ter visto um fantasma. Ele sorriu, e respondeu que o que mais havia em Paris eram fantasmas. Deixou-me no hotel e me deu seu cartão para quando eu fosse precisar de seus serviços.

Arrumei as minhas coisas e telefonei ao marchand que me orientou sobre a exposição. Perguntei se já tinham achado a tela desaparecida, mas ele ainda não sabia de nada. Eu tinha dois dias para visitar Paris e fazer compras, enquanto a galeria preparava a vernissage. Fui a uma loja comprar um vestido para a ocasião. Enquanto experimentava algumas roupas no provador, a cortina se abriu e o desconhecido apareceu. Quase tive uma sincope de susto. Fiquei paralisada, sem saber se me cobria, ou deixava o vestido cair no chão.  Ele agarrou o meu pulso e falou:
- “Apresse-se, eu não estou agüentando mais!”. Fechou a cortina e desapareceu. Sai correndo atrás dele, ainda com o vestido da loja, mas ele tinha evaporado. A vendedora correu para a calçada e me segurou pelo braço assustada. Acalmei-a, dizendo que tinha visto um conhecido na loja, mas ele saiu sem que pudéssemos nos falar. Ela me olhou desconfiada, pois jurava não ter visto ninguém mais entrando na loja. Comprei o vestido e fui para o hotel. Tentei fazer com que os meus neurônios se entendessem. Aquilo tudo estava me deixando sem chão.

 Voltei a pensar no sonho e no papel amarelado, manchado de algo que parecia sangue. Tomei uma decisão. Conhecia o local que indicava o bilhete no sonho, e sem pensar duas vezes, fui para lá. Ficava mais ou menos a uns quatro quarteirões do hotel, e resolvi ir caminhando até lá. Acontece que era sábado e estava ficando tarde, o comercio começara a fechar. Abririam somente na segunda feira. Os meus dias de folga teriam acabado até lá. A loja era exatamente a do endereço que eu havia visto no bilhete do sonho, mas como eu previra, estava fechada. Tinha uma grande porta de vidro na entrada e uma vitrine com muitas molduras exposta ao lado. Fui até os fundos da loja e bati na porta, quem sabe ainda tivesse alguém lá dentro, mas ninguém veio atender. Espiei por uma pequena janela o interior e nada, nenhum ser vivente por lá. Resolvi dar uma de ladra e comecei a forçar a fechadura com um grampo. Tentei, tentei, mas não estava dando certo. Estava quase desistindo quando ouvi um clique sutil dentro da fechadura. Abri, eu nem acreditei.

A loja estava escura. Eu não queria acender as luzes para não delatar a minha presença. Procurei nas gavetas por uma lanterna e, por sorte, encontrei. Ficou mais fácil entrar na escuridão que já se alastrava pelo ambiente. Havia a sala principal, onde se atendia a freguesia, com varias molduras de amostra pelas paredes e uma mesa grande com a registradora e papeis e notas. Havia outra salinha, onde eram feitas as molduras. Vasculhei cada canto da loja e não vi nada que me parecesse suspeito. Estava saindo quando reparei num saco de gesso rasgado. Faltava um pedaço do papel e era amarelado como o do bilhete do sonho. Fiquei em alerta.

Comecei a bater com um martelo nas paredes, tinha que achar uma pista naquele lugar. Numa das paredes havia restos de gesso que tinha sido mal varrido. Era uma boa pista e eu me concentrei nessa parede. Eu não sabia se metia o martelo e arrebentava tudo, ou dava o fora dali, antes que tivesse outra daquelas visões estranhas. Comecei a martelar e me pareceu que tudo ali estava mole, recém feito. Deu dó de arrebentar aquele lindo afresco, mas foi o que eu fiz. Se alguém aparecesse naquele momento eu ia parar na delegacia e adeus exposição. Arrebentei um bom pedaço da parede, o suficiente para eu poder entrar e dar uma vasculhada. Era um corredor escuro e estreito. Fui me esgueirando rente à parede. Andei uns cinco metros e parei em frente a uma portinha de ferro com cadeado. Ainda bem que estava com o martelo, três pancadas, e ele cedeu.

Entrei com cuidado na pequena sala escura. Era úmida e sem janelas, com o chão de terra batida. Preso na parede, amarrado com cordas a duas argolas de ferro, estava o desconhecido desmaiado. Eu não acreditava no que estava vendo ali. Desatei os nós das cordas que o amarravam e ele desabou no chão. Peguei meu vidro de perfume na bolsa e encostei-o no nariz dele. Foi acordando aos poucos e quando me viu, abraçou-me quase chorando. Dizia palavras desconexas, falava sobre um ritual de reencarnação feito numa Loja Maçônica. Eu o ajudei a se levantar e pedi que saíssemos dali o mais rápido possível, pois quem tivesse armado aquela arapuca, com certeza, estaria por perto. Fomos para o hotel, mas desta vez preferi pegar um táxi. O saguão estava vazio e foi fácil entrar no elevador sem sermos vistos.

Já instalados em meu quarto, pedi ao serviço de quarto que mandasse uma refeição leve. Achei que pela cara dele, deveria estar morto de fome. Depois de vê-lo com mais cor, perguntei sobre a história do ritual. Vi que ele se encolheu todo, mas eu tinha que saber, pois já estava envolvida até a alma. Segurei suas mãos e disse: Fale-me do ritual. Eu não sabia que os maçons faziam... Antes de terminar a frase ele me interrompeu dizendo:
- Fazem. É feito por um grupo dissidente, a revelia da Loja principal. Esse grupo está de acordo com o Antigo Templo de Osíris, uma seita egípcia extremamente secreta.
- Eu jamais ouvi que Osíris tinha voltado do Vale dos Reis para se unir aos maçons.
- Usam um sistema místico onde contém doutrinas secretas cabalísticas e astrológicas para fazer a passagem da reencarnação.

Se ele não estivesse na minha frente fazendo aquela explanação maluca, e eu já não tivesse  presenciado com os meus próprios olhos, não acreditaria em nenhuma palavra dele. Precisava tomar uma dose de conhaque. Estava travada, nem conseguia andar direito. Como era possível trazer um morto para a vida novamente? Ele me dizia cheio de entusiasmo sobre as grandes descobertas desses dois grupos. Falava de um treino mental de longos anos que ligava o consciente e o inconsciente. Todo o caminho levava a pessoa escolhida para dentro de um sonho e de lá para a vida real. Quando ele falou em sonho, dei um grito.
- Sonho? Mas você estava em meu sonho!
- Sim, eu estava! Foi como um relâmpago para todos nós que participávamos da passagem no ritual. Depois, quando você me pintou na tela, estava tudo completo.
- Minha tela, a que sumiu?
- Sim, eles a esconderam, para que eu voltasse, mas eu me rebelei, depois de te ver no sonho. Eu me apaixonei por você. Eles disseram que era somente uma experiência, que eu teria que voltar.
- Minha nossa! E o que o quadro tem a ver com isso?
- Preciso estar sempre com ele por perto, é como uma segunda pele, sem ele, minha presença neste plano se torna insustentável.
- E onde eles estão agora?
- Provavelmente, tentando me achar, para fazer o meu transporte ao seu sonho.
- Ah, meu deus, me dê um beliscão, não, me dê um tapa na cara para eu acordar agora! Explique-me uma coisa, por que você estava preso naquela masmorrinha sem ar?
- Eles estavam se desentendendo quanto a eu ir de volta, ou não. Os maçons eram contra a minha reencarnação neste momento, e os seguidores de Osíris, não. Os de Osíris sumiram com o quadro e os maçons me prenderam. Quando iriam resolver a questão, eu não sei. Só sei que daqui eu não saiu.

Enquanto conversávamos, percebi que ele estava ficando fraco. E naquele instante, tive uma das minhas ideias repentinas.
- Vou pintá-lo novamente! Vai dar certo, tenho certeza. Ele me pediu uma caneta que pudesse escrever na parede e eu lhe dei meu estojo de hidrográficas. Enquanto eu preparava as tintas, ele escrevia hieróglifos pelas paredes do quarto. Disse que cada grupo de sinais era uma chave para se sair do Vale dos Mortos. Eu peguei meu material de pintura, mas não tinha uma tela. Nossos olhos foram juntos a uma cópia de Miró que estava numa das paredes. Eu disse:
-Serve, essa tela vai ser perfeita! Depois de passar uma base branca sobre a tela, comecei o retrato. Enquanto ele falava um mantra, se concentrando nos sinais das paredes, a sua imagem era impressa com fidelidade na tela. Percebi que em cada etapa terminada, um sinal desaparecia da parede, e ouvíamos vozes egípcias no ar. Tudo ali estava encantado, aqueles hieróglifos realmente tinham um poder grandioso. Depois de mais ou menos duas horas, o retrato estava pronto e as paredes estavam intactas, apenas o quadro era outro. Pedi na recepção, que cobrassem a cópia de Miró, o que foi feito e não teve problemas para mim.

Minha exposição foi um sucesso. O desconhecido ficou o tempo todo comigo. Muitos quiseram comprar o seu retrato. Era enigmático e de uma beleza diferente. Foi a única tela que trouxemos de volta para casa. Estamos juntos agora, completamente apaixonados. O quadro está bem guardado, longe de olhares curiosos, que por ventura, queiram decifrá-lo.

Ontem eu tive outro sonho estranho. Era sobre uma menina, provavelmente de alguma corte da Europa. Assim que acordei, corri para pegar uma tela e pintá-la.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sob a Superfície da Noite


 Tela de Jane Planson


Hessa recitava o alcorão com profunda reverência. As palavras sagradas flutuavam a sua volta e ela as sentia com profundo respeito e bem aventurança. O peso das coisas impossíveis ficavam lá fora, enquanto o seu mundo interno resplandecia em júbilo por cada letra perfeitamente desenhada, cantada por ela numa reza cadenciada e suave. Só pensava no sonho que a visitara dias antes, quando um amigo que pertencia ao Hamas lhe convidou para ser uma deles. Ele havia lhe mostrado uma porta estreita, mas ela pensou que talvez pudesse passar. Conhecia as revoltas islâmicas e quando tomou a decisão de apoiá-los, o fez com a convicção de estar colocando sua fé inabalável no que achava ser o maior e melhor movimento de resistência palestino.

Depois de um tempo recebendo instruções e treinamentos, estava preparada para se tornar uma shahid (mártir). O dia de dizer a sua mãe, Belqis, sobre a sua escolha, não foi nada fácil. Como uma mãe como ela, que não aceitava esse movimento, podia entender o que significava essa entrega total da vida? Hessa dizia que para ela seria como ter um poder supremo, uma passagem para o “além-vida”. Nada de mal poderia tocá-la ou alcançá-la, porque se tornaria a espada de Alá.

Não entendeu quando Belqis fechou o alcorão, e com lágrimas nos olhos, pediu-lhe que voltasse atrás, que desistisse dessa explosão inútil. Dizia com todas as forças que uma mãe em desespero consegue dizer. Que essa era uma guerra de muitos interesses, que só acabaria quando amassemos nosso inimigo, que ela devia seguir o seu próprio caminho, não um caminho imposto com tanto ódio. Mas Hessa estava possuída por uma vontade sobre humana, tinha nos olhos aquele brilho dos fanáticos que foram manipulados. Hessa segurou os ombros de Belqis dizendo com uma voz de louvor: “Mãe, o meu corpo se espalhará pelo ar, explodirá de tal maneira que nenhuma parte ficará reconhecível. Não se preocupe, pois nem mesmo saberão o meu sexo”.

Belqis não entendia esse fanatismo louco, não podia entender como alguém com tanta beleza podia pensar em deixar de viver nesta vida por um Paraíso prometido. Ela era tão palestina quanto todos os outros, mas não entendia os shahids. Conhecia muito bem essa filha, sabia como funcionava sua cabeça. Era uma muçulmana e sonhava ver sua Palestina livre com todos os seus direitos reconhecidos. Tudo isso era bem claro para ela, mas como poderia suportar saber que Hessa estaria em pedaços por uma Terra Santa que não poderia ser só dela?

Nessa noite, Belqis tomou uma decisão. Chamou a filha logo de manhã e pediu que a acompanhasse até Jerusalém. Precisava lhe mostrar uma pessoa antes dela se tornar uma shahid. As ruas de Jerusalém foram sendo abraçadas por uma luz abrasante. As sombras iam aos poucos se refugiando dentro das muralhas. As janelas de treliça se abriam, mostrando guardar refúgios verdadeiros no seu interior.

Hessa seguia pensativa com sua mãe ao lado. Não sabia que aquele lado judeu onde estava pisando também fazia parte de sua vida. Entraram na zona do mercado. Hessa sentiu um nó na garganta. Se tivesse que se imolar, esse seria o local. Já tinha ouvido sobre isso nas reuniões do Hamas. Belqis segurou a mão de Hessa e seguiram até um banco de madeira que ficava ao lado de uma barraca de frutas secas. Olharam-se por um instante, mas os olhos de Belqis se perderam num lugar muito distante dali, bem antes de Hessa nascer. Ela arrumou o lenço na cabeça escondendo os fios de cabelos grisalhos que teimavam em sair. Olhando os olhos da filha, começou uma história que Hessa não conhecia.

- Aqui, nesta barraca ao lado, trabalha uma amiga, a Feigel.
- Uma judia inimiga?
- Não, Hessa, uma judia amiga! Quando éramos jovens, morávamos uma ao lado da outra. Eu era recém casada e estava grávida. O seu pai trabalhava em outra cidade e só podia voltar para casa uma vez por ano. A Feigel se apaixonou por um libanês e ficou grávida. Estava pensando como contar aos seus pais, quando ele faleceu num acidente com um trator. Feigel enlouqueceu de tanta amargura, cortou os cabelos, disse que abortaria e iria se meter dentro do exército para sempre. Enquanto Feigel ostentava sua aflição e desespero por não saber como sair daquela situação, pedi a ela que viesse morar comigo. Estávamos completamente sozinhas, num lugar deserto e grávidas. No final das contas, precisávamos uma da outra.

A gravidez dela estava bem avançada. A minha não ia bem. Passei muito mal e com sangramentos durantes meses. Numa manhã acordei com dores tão fortes e acabei desmaiando. Quando acordei e dei por mim, Feigel estava em prantos, toda ensangüentada. Disse que eu tinha abortado, que tinha feito de tudo, mas não teve jeito do bebê esperar o tempo certo. A luz que estava sendo projetada da janela para a minha cama não deixava dúvidas. Ali tinha havido um campo de batalha. A cama estava empapada de sangue. Havia uma grande bacia com água e panos sujos por todo o quarto. Todo o resto do dia foi cheio de cuidados. Feigel enterrou o bebê, que mal cabia na palma de sua mão, embaixo de uma tamareira que ficava no quintal da casa. Fizemos orações e cantamos até chegar a noite. O resto da semana foi pensando, como dizer ao seu pai que não estava mais com o filho, que ele tanto esperava, dentro de mim.

Um mês havia se passado e agora era Feigel quem sofria as dores do parto. Acordei de madrugada com ela gemendo e pedindo água. Não deu meia hora e nascia uma menina de cabelos avermelhados, toda rosada. Aquele momento ficou congelado em nossas lembranças. Passou um mês quando Feigel com sua menininha nos braços, arrastando os pés e a alma, me disse que tinha achado uma solução para o nosso destino. Era um fim de shabat. Tínhamos rezado, cada uma em seu Livro Sagrado. As nuvens estavam pesadas no céu, como há muito não se mostravam. O ar tinha uma eletricidade palpável. Feigel parecia um anjo em brumas, vestida com sua camisola branca de algodão. Temi por aquele instante. Vi lágrimas em seus olhos e seu silêncio hermético. 

Ela acariciava a filhinha que trazia grudada em seu peito. Estava trêmula quando a colocou em meus braços dizendo: “É sua agora, você tem mais direito a ela do que eu”. Entendi aquele gesto e percebi o quanto estava sendo difícil para ela entregar-me o seu tesouro. Na manhã seguinte, ela voltou para morar no kibutz Berdichev, junto dos pais. Dois meses depois, o seu pai voltou para ficar definitivamente conosco. Você se tornou nossa filha, por causa daquele amor que ela lhe tinha.

Hessa se levantou dando um salto. Ficou parada, imóvel olhando a barraca de frutas secas. Não se atreveu a respirar quando viu Feigel aparecer na porta com um sorriso para elas. Belqis levantou-se e foi cumprimentar a amiga. Abraçaram-se com os corações acelerados. Feigel estendeu as mãos a Hessa que engoliu em seco. Naquela hora da manhã, não havia testemunhas oculares. Hessa estava contraída pensando se por acaso alguém do Hamas a visse ali, com certeza imaginaria que estava fazendo reconhecimento de campo.

Quando tocou a mão de Feigel, sentiu cheiro de damasco. As três entraram na tenda e se sentaram entre as caixas de frutas. Tudo ali exalava uma promessa. À medida que a conversa avançava, Hessa ia desvendando um interminável segredo que até agora só lhe tinha feito bem. Tinha os olhos marejados de lágrimas. Sentiu que seu coração estava assombrado e envenenado por um ódio que não era mais seu. Aquela mulher judia que falava com uma voz tão calma, não podia ser uma inimiga. Ela tinha feito de sua vida um encontro, e permitiu que o vento arrastasse aquelas nuvens negras que um dia pairou no mesmo céu de Belqis, sua mãe. Abraçaram-se na despedida e quando Feigel segurou as mãos de Hessa, firme, mas cheia de ternura, disse-lhe: “Minha querida, o mundo estaria bem melhor sem mitos, sem religiões e sem filosofias. Muita crença atrofia o cérebro, aprendi isso à duras penas. Seja livre dentro de você mesma. Ter consciência das coisas é o melhor caminho a se tomar. Vá e viva uma vida simples e longa. D´us nos fez para a felicidade e ela só existe dentro de nós mesmos.”. Belqis e Feigel olharam-se com cumplicidade.

Hessa chorou muito naquela noite. Secretamente, gostou de ser uma judia, pois admirou a maneira de ser de Feigel. Uma sensação de sombra que se afasta foi o que sentiu quando se desligou do movimento do Hamas. Uma semana depois, um outro em seu lugar se explodiu no mercado de Jerusalém. Feigel estava fazendo compras no porto, quando Belqis lhe telefonou preocupada.