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sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Tempero Secreto (memórias de uma menina-moça)


Tela de Alexei Alexeivich Harlamoff

Quando foi inaugurado o Grande Hotel, meu pai e eu estávamos trabalhando nas vindimas do Alentejo, a maior província de Portugal, na Herdade da Malhadinha Nova, perto de Albernoa. Trabalho duro e cansativo, que era a do apanho dos bagos para depois pisá-los nos lagares. Um dia, meu pai recebeu uma carta de um primo, que trabalhava no Hotel Herdade dos Mouros como jardineiro. Dizia que estavam precisando de um faz-tudo, e, como sabia das habilidades de meu pai em consertar coisas, pedia a ele que aceitasse, pois seria um bom lugar para nós. Senti pelos olhos brilhantes de meu pai que iríamos; e foi assim que nós nos instalamos numa casinha de pedras com varanda, dois quartinhos, uma grande cozinha, que também fazia lugar de sala.

Aquele convite tinha caído do céu para nós dois. Deixamos a Herdade da Malhadinha para trás, sem muitas saudades. Uma semana depois, já nos sentíamos em casa. Realmente, meu pai tinha muitas coisas para consertar naquele hotel. Eu, além de cuidar do nosso novo lar, ia para a cozinha do hotel ajudar na arrumação das louças. Aos poucos, fui percebendo o desenrolar do fluxo daquele lugar tão encantador.

Com o passar dos dias, fui conhecendo cada canto daquele hotel tão singular. Todos os funcionários estavam familiarizados com a minha presença. Eu era, portanto, uma grata figura que estava ali para ajudá-los no que precisassem. A única pessoa que eu tinha um certo receio de chegar perto era o cozinheiro. Não era medo, era um sentimento de precaução. Talvez por nunca ter visto um homem tão bonito em minha vida. Ele era alto e magro, mas com músculos por baixo da camisa. Sua pele morena, e seus olhos negros que nadavam num mar branco de longos cílios entregavam sua origem árabe. Confesso que me escondia, todas as vezes que ele chegava, para orquestrar seus ajudantes de cozinha, que era feita de varias salas. A dos peixes e frutos do mar, das carnes, das aves, das saladas, e das sobremesas. Em cada uma delas, eram resolvidos os delicados manejos dos primorosos pratos que faziam o delírio dos hóspedes. A comida era coroada com um molho, desenvolvido pelo charmoso cozinheiro árabe. Uma receita guardada a sete chaves, e ninguém, além dele, tinha acesso a esse segredo. Todas as refeições eram regadas com os melhores vinhos alentejanos, vinhos que eu e meu pai já conhecíamos.

O único lugar que ninguém podia chegar perto era a adega. Somente o sommelier e o cozinheiro árabe, tinham o poder naquele reino etílico.

A cidade tinha ficado famosa por conta dos artistas que começaram a fazer dela um point de encontros e eventos. O Hotel Herdade dos Mouros seguiu a onda do sucesso, tornando-se um lugar de extremo bom gosto, procurado por todos os que moravam nas redondezas para almoços e jantares e por turistas do mundo inteiro.

A paz que aquele lugar trazia inflamava o espírito, fazendo você querer estar ali para sempre. Andar pelas alamedas dos jardins compensava todos os dissabores de uma vida. Tudo ali era feito para emocionar. Cada quarto surpreendia por sua originalidade. Cada suíte era de uma cor: lilases, foscos, densos tons azuis, e verdes que flutuavam ramos de flores coloridas. Madeira aparente decorava quase todos os ambientes. Armários, cômodas e camas de época. Os metais antigos no banheiro brilhavam. A banheira de hidromassagem era iluminada por luz natural que se filtrava através da vegetação e da transparência dos vidros. Os quartos todos eram voltados para uma montanha, que tinha incrustado como um medalhão, uma cachoeira. Ao redor da montanha, um rio negro que refletia os ciprestes e serpenteava toda a encosta que separava o jardim do hotel.

Meus primeiros seis meses foram dedicados ao aprendizado das coisas que me cabiam, e um pouco além delas.

Um dia, quando a cozinha estava quieta, naquela hora morta, depois da arrumação do jantar, quando todos os empregados já estavam recolhidos em seus aposentos, eu resolvi ir até a geladeira pegar uma sobremesa que tinha reservado para comer. Era a sobremesa preferida do cozinheiro árabe, Pêssego Melba.

Quando fechava a geladeira, vi um vulto se esgueirando para aos lados da adega. Estatelei do lado da parede, onde havia um nicho, para não ser descoberta em meu delito - o pecado da gula. Meu coração batia, retumbando como um tambor de soldadinho assustado, porque aquele não era um território livre. Enquanto dava ordens ao meu coração para que fizesse o favor de parar com aquele batuque, pensei se ganharia algum crédito de confiança em descobrir quem estaria entrando na adega àquela hora da noite.

O sommelier não morava no hotel, portanto, já deveria estar bem longe dali. Do cozinheiro eu não sabia nada, era o sujeito mais estranho que eu já tinha visto. Uma vez demos um encontrão num dos corredores do hotel. Minha cabeça bateu bem no meio de seu largo peito e fiquei sem ação quando aqueles olhos de um brilho estranho e misterioso me cercaram querendo descobrir algo. Suas mãos me alcançaram numa curva desfeita que tentei refazer para me desviar de seu corpo e nessa hora pude observá-las. Não tinham manchas ou ossos salientes. Eram morenas e sem pêlos, como as mãos de uma mulher, se não fossem tão grandes. Como tinha cabelos compridos, ele os prendia com um lenço verde escuro. Quem não o conhecia, diria se tratar de um corsário, ladrão de corações.

Segui minha intuição, tirei meus sapatos para conservar o silêncio sobre controle, e fui atrás do gatuno da adega.
A adega era pequena, tinha quatro fileiras com prateleiras cheias de garrafas de vinho. Todas as paredes tinham estantes com garrafas. Fiquei do lado de fora, encostada à porta para tentar ouvir algum som suspeito. Tudo estava no maior silêncio. Foi quando ouvi passinhos, vindo em direção à cozinha. Eram duas hóspedes que riam abraçadas e iam direto à geladeira. Quando viram a taça de Pêssego Melba, fizeram o maior carnaval, comendo tudo ali mesmo. Eu não acreditei naquela mancada que eu tinha dado por não ter levado a taça dali, como tinha planejado. Não, eu tinha que bancar a detetive. Como eu não tinha conseguido nem o Melba nem o gatuno, fui para a minha casa dormir.

Meu pai já tinha pegado no sono, perto da lareira, e nem percebeu a minha entrada. Sonhei com a adega a noite inteira. Havia taças de Pêssegos Melba em todas as prateleiras e as duas hóspedes estavam embriagadas de tanto comer das taças. Acordei aos sobressaltos e fui até a varanda. Vi nascer uma lenta e pálida aurora que espalhava as brumas sobre as flores do jasminzeiro que derramava seu perfume pelo ar.

Daquele dia em diante fiquei em alerta. Ninguém passava por mim sem que eu acionasse meu sistema de alarme. Aquele ano, o hotel estava mais alegre do que nunca, todo os quartos estavam alugados, e o almoço e jantar eram disputadíssimos por gente que aparecia de não sei onde.

Nos dias claros e de alta temperatura, o almoço era servido num caramanchão, rodeado por glicínias lilases. Grupos de amigos se contorciam nas mesinhas de madeira entalhadas em marchetaria, que formavam flores. Abriam-se grandes guarda-sóis para essas mesas que ficavam longe do caramanchão. A festa começava quando chegavam as saladas e seus espessos molhos deslizavam nas folhas, muitas vezes servidas pelo próprio cozinheiro árabe. Depois das refeições, fluía um ar encrespado, um inquieto contentamento, como se todos estivessem num estado de frenesi. No jantar, esse estado de espírito era mais óbvio. Eu não sei se por causa da luz de velas e do perfume do jardim que entrava pelas janelas abertas, ou se pela música suave e envolvente que sempre tocava, só sei que tudo respirava erotismo.
Aquilo tudo era um tanto estranho para mim que começava a imaginar “coisas” em relação ao sexo.

Uma noite, quando tudo se aquietara no hotel, fui dar um passeio pela geladeira. Não era os Pêssegos Melba que eu procurava, mas o vulto da adega. Fiquei bem atrás da geladeira, só na espera. Queria saber como alguém podia entrar ali e desaparecer, se não havia nenhuma porta ou escada. Entrei na adega e fiquei encolhida entre uma das estantes perto da porta de entrada. Mal respirava. Imóvel e tentando ser invisível fiquei ali uns dez minutos, quando ouvi passos sorrateiros se aproximando.

Como a adega estava em penumbra, ficou impossível ver o rosto da pessoa, mas pelo tamanho, vi que era um homem. Ele girou uma garrafa e a estante de vinhos que ficava numa das paredes, se mexeu, abrindo uma passagem estreita que se fechou imediatamente. O vulto desapareceu. Fiquei sem ar e de pernas bambas por uns instantes. Aquilo de passagem secreta, só tinha visto uma vez, num filme. Marquei muito bem o lugar contando as garrafas, para saber qual abriria a porta, pois voltaria na noite seguinte.

Foi o dia mais longo de minha vida. Antes do jantar, aconteceu algo na cozinha e eu fui chamada às pressas. Pediram que eu ajudasse na preparação das saladas, pois a moça que fazia esse serviço tinha faltado. Disseram que sua irmã gêmea tinha desaparecido e ela teve que ficar com os pais que estavam desesperados. Na cozinha, cochichavam pelos cantos, comentando sobre a extrema beleza das irmãs e o desaparecimento da mocinha. O único que se mantinha impassível e inalterado era o cozinheiro árabe. Naquela noite tensa e cheia de aflição, eu vi quando o olhar do cozinheiro desceu discretamente de meus seios até os meus pés. Disfarcei e sai correndo para a casinha de pedras, mas no meio do caminho voltei novamente para a cozinha me sentindo uma boba por não aguentar o olhar de um homem.

Tomei uma decisão naquele instante. Fui até a adega, uma hora mais cedo do que o vulto costumava chegar. Girei a garrafa e vi a portinha se abrindo. Não sabia se entrava ou saia correndo dali e contava tudo ao meu pai. Decidi não contar nada, sem antes descobrir o que realmente existia ali. Desci os degraus que levavam a uma salinha sombria, que tinha sua penumbra quebrada por velas acesas por todos os cantos. Achei uma porta, logo atrás de uma cortina pesada, e entrei no maior silêncio, para uma outra sala. Esta era totalmente preta, com as paredes forradas de veludo. Parecia uma sala a prova de som, pois as paredes eram macias demais. Ali, bem no meio da sala, havia uma cama estranha, mais alta que as camas comuns. Do teto saiam duas correntes com argolas de aço nas extremidades. Nas laterais da cama havia correias de couro na altura das mãos e dos pés. Ao lado dessa cama maluca, ficava uma confortável poltrona de veludo vermelho, e junto dela, uma mesinha com rodinhas nos pés, cheia de toalhas brancas e tigelinhas de louça, iguais as da cozinha.

Eu tremia tanto e meu coração batia tão forte, que fiquei com medo de ser descoberta. Pensei em sair dali voando, em fugir como um ladrão da noite, mas me encolhi na minha invisibilidade. Tinha que exercer dali por diante o meu aprendizado sobre o silêncio e fiquei mais do que muda, virei sal. Foi quando alguém entrou na sala. Imediatamente eu me esgueirei por trás de uma cortina espessa que, felizmente, chegava até o chão, e pensei: - seja o que Deus quiser!- Ouvi alguém entrando na sala e tive que espiar. Dali para frente, o que vi foi um total desafio para mim.

Quem entrou naquela sala aveludada foi o cozinheiro árabe. Ele estava exatamente como veio ao mundo, nu. Como eu nunca tinha visto um homem nu, a não ser o meu vizinho de dois anos lá do Alentejo, aquilo foi um tremendo choque para mim. O cozinheiro entrava e saia trazendo coisas que eu não conseguia identificar, e as ia arrumando na mesinha. E então, ele entrou numa porta, que eu não tinha visto por estar escondida sob as cortinas, e de lá, voltou com uma moça nua nos braços. Era a Ana, a moça da cozinha, aquela que eu estava substituindo. Colocou-a sobre a cama preparada e puxou-a até o meio, abrindo suas pernas, tudo isso com a maior delicadeza. Amarrou seus tornozelos às correias e as mãos foram atadas às argolas do teto que se moviam num vai e vem, dando mobilidade ao seu corpo, fazendo com que pudesse subir ou descer. A cabeça ficou solta, e ela podia levantá-la e ver como seria o seu sacrifício.

O cozinheiro fazia tudo no maior silêncio. Eu não respirava mais. Ele ligou um aparelho de CD e uma música árabe deu o sinal. Ali, começaria um ritual de luxuria que me deixou tonta e sem chão. Primeiro ele derramou sob os seios de Ana um creme branco que não consegui identificar, mas parecia ser o creme do Pêssego Melba. Foi nessa hora que começou a tortura, não dela, mas minha. Ver aquele homem nu lambendo aquele creme, não estava me fazendo bem.

Ana se contorcia, abrindo e fechando a boca. Seus olhos ficaram semicerrados e marejados de lágrimas, enquanto ele despejava um cálice do creme em seu ventre, fazendo com que ela se contorcesse, levantando os quadris, parecendo querer se desprender das amarras.
O cozinheiro deu um salto subindo na cama, e com seu pênis duro, mergulhava-o no pote de creme passando-o no rosto e na boca de Ana. Ela gemia e se contorcia, quase como eu faria se estivesse no seu lugar.

O cozinheiro continuava aquela tortura de mestre. Quando alcançou a boca da mocinha, delicadamente foi introduzindo aquele membro duro e latejante, até que finalmente ela o estreitou inteiro em sua garganta. Eu não sabia se ela comia o creme ou sugava aquele corpo enlouquecido.

Quando ela começou a ficar ofegante e seus olhos se tornaram brilhantes, ele desceu até o seu ventre, e foi de língua em riste, contornando as curvas todas dos quadris, indo e vindo em círculos, até chegar num monte suave e trêmulo. Ela se sacudia toda, querendo aproximar-se cada vez mais daquela boca sedenta. Quando seu clitóris estava endurecido e rosado como um botão, ali naquele momento, ele mostrou a que veio. Com dois dedos, ele penetrou-a por trás. Eu nem sei se ela estava gostando, pois me pareceu que iria se dissolver naquela cama a qualquer momento.

Com a língua, como se estivesse lambendo um sorvete, ele sugava aquilo tudo, num vai e vem, com o mesmo ritmo dos dedos que brincavam por trás. Quando parecia que Ana ia virar uma cobra viva se sacudindo para tentar se soltar, ele parou tudo e penetrou-a com aquele símbolo fálico descomunal. Enquanto ela gemia por mais, ele entrava e saia, mordendo seus mamilos endurecidos e febris. Puxava seus cabelos para trás com as duas mãos e segurava sua cabeça, enfiando a língua em sua boca quente e úmida. E quando eles começaram a tremer de dor e prazer, por causa desse compasso alucinado, ele, de repente, parou tudo e se enfiou entre as coxas de Ana, que começou a subir e descer os quadris, em êxtase. Ele como um mestre enfiava-lhe dois dedos num ponto de seu ventre, fazendo-a sacudir tanto e a gritar e chorar, que quase saio correndo dali, mas como estava tão petrificada, como excitada, não me mexia nem por decreto.

Ana estava começando a se acalmar depois do tremendo espasmo alucinante, quando, pasmem, o cozinheiro recolheu na tigelinha de louça todo o líquido espesso que Ana vertia. Juro que eu não entendi o porquê daquilo. O cozinheiro, então, soltou as pernas e os braços da mocinha, e eles se abraçaram e se beijaram como nunca vi em lugar nenhum. Penetrou-a novamente de uma forma que parecia que a amava. Foi o que eu vi naquela noite inesquecível.

Daquela dia em diante, eu nunca mais seria a mesma. Amadureci uns dez anos. Descobri que a moça que eu pensei ser Ana, a ajudante da cozinha, era a sua irmã Nina, que estivera desaparecida. Ana nos disse que sua irmã havia aparecido depois de uma semana. Estava esgotada, e mais parecia um zumbi. Por mais que a família perguntasse o que tinha acontecido, a resposta era sempre a mesma. Junto com um sorrisinho maroto, dizia que não se lembrava de nada. Apenas que alguém tinha lhe enfiado um capuz na cabeça e lhe dado algo doce para tomar. Como se alguém pudesse esquecer daquilo tudo!

Descobri que o tempero secreto do cozinheiro árabe era, nada mais, nada menos, que fluídos orgásticos de mocinhas, mantidas por um tempo naquela masmorra do prazer. Era com “isso” que o cozinheiro árabe temperava os deliciosos molhos com gosto de maresia, que encantava a todos.

Naquele ano, a cozinha do Hotel da Herdade do Mouro foi agraciada pelo Guia Michelin, com cinco estrelas por conta de sua “jóia rara”: o molho especial batizado de “MAR ADENTRO”.

Aquele quarto de veludo negro recebeu muitas mocinhas que perderam a memória completamente ou quiseram perdê-la. Eu ainda guardo na lembrança como era doce o Pêssego Melba do cozinheiro árabe do inesquecível Hotel da Herdade do Mouro.

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