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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sob a Superfície da Noite


 Tela de Jane Planson


Hessa recitava o alcorão com profunda reverência. As palavras sagradas flutuavam a sua volta e ela as sentia com profundo respeito e bem aventurança. O peso das coisas impossíveis ficavam lá fora, enquanto o seu mundo interno resplandecia em júbilo por cada letra perfeitamente desenhada, cantada por ela numa reza cadenciada e suave. Só pensava no sonho que a visitara dias antes, quando um amigo que pertencia ao Hamas lhe convidou para ser uma deles. Ele havia lhe mostrado uma porta estreita, mas ela pensou que talvez pudesse passar. Conhecia as revoltas islâmicas e quando tomou a decisão de apoiá-los, o fez com a convicção de estar colocando sua fé inabalável no que achava ser o maior e melhor movimento de resistência palestino.

Depois de um tempo recebendo instruções e treinamentos, estava preparada para se tornar uma shahid (mártir). O dia de dizer a sua mãe, Belqis, sobre a sua escolha, não foi nada fácil. Como uma mãe como ela, que não aceitava esse movimento, podia entender o que significava essa entrega total da vida? Hessa dizia que para ela seria como ter um poder supremo, uma passagem para o “além-vida”. Nada de mal poderia tocá-la ou alcançá-la, porque se tornaria a espada de Alá.

Não entendeu quando Belqis fechou o alcorão, e com lágrimas nos olhos, pediu-lhe que voltasse atrás, que desistisse dessa explosão inútil. Dizia com todas as forças que uma mãe em desespero consegue dizer. Que essa era uma guerra de muitos interesses, que só acabaria quando amassemos nosso inimigo, que ela devia seguir o seu próprio caminho, não um caminho imposto com tanto ódio. Mas Hessa estava possuída por uma vontade sobre humana, tinha nos olhos aquele brilho dos fanáticos que foram manipulados. Hessa segurou os ombros de Belqis dizendo com uma voz de louvor: “Mãe, o meu corpo se espalhará pelo ar, explodirá de tal maneira que nenhuma parte ficará reconhecível. Não se preocupe, pois nem mesmo saberão o meu sexo”.

Belqis não entendia esse fanatismo louco, não podia entender como alguém com tanta beleza podia pensar em deixar de viver nesta vida por um Paraíso prometido. Ela era tão palestina quanto todos os outros, mas não entendia os shahids. Conhecia muito bem essa filha, sabia como funcionava sua cabeça. Era uma muçulmana e sonhava ver sua Palestina livre com todos os seus direitos reconhecidos. Tudo isso era bem claro para ela, mas como poderia suportar saber que Hessa estaria em pedaços por uma Terra Santa que não poderia ser só dela?

Nessa noite, Belqis tomou uma decisão. Chamou a filha logo de manhã e pediu que a acompanhasse até Jerusalém. Precisava lhe mostrar uma pessoa antes dela se tornar uma shahid. As ruas de Jerusalém foram sendo abraçadas por uma luz abrasante. As sombras iam aos poucos se refugiando dentro das muralhas. As janelas de treliça se abriam, mostrando guardar refúgios verdadeiros no seu interior.

Hessa seguia pensativa com sua mãe ao lado. Não sabia que aquele lado judeu onde estava pisando também fazia parte de sua vida. Entraram na zona do mercado. Hessa sentiu um nó na garganta. Se tivesse que se imolar, esse seria o local. Já tinha ouvido sobre isso nas reuniões do Hamas. Belqis segurou a mão de Hessa e seguiram até um banco de madeira que ficava ao lado de uma barraca de frutas secas. Olharam-se por um instante, mas os olhos de Belqis se perderam num lugar muito distante dali, bem antes de Hessa nascer. Ela arrumou o lenço na cabeça escondendo os fios de cabelos grisalhos que teimavam em sair. Olhando os olhos da filha, começou uma história que Hessa não conhecia.

- Aqui, nesta barraca ao lado, trabalha uma amiga, a Feigel.
- Uma judia inimiga?
- Não, Hessa, uma judia amiga! Quando éramos jovens, morávamos uma ao lado da outra. Eu era recém casada e estava grávida. O seu pai trabalhava em outra cidade e só podia voltar para casa uma vez por ano. A Feigel se apaixonou por um libanês e ficou grávida. Estava pensando como contar aos seus pais, quando ele faleceu num acidente com um trator. Feigel enlouqueceu de tanta amargura, cortou os cabelos, disse que abortaria e iria se meter dentro do exército para sempre. Enquanto Feigel ostentava sua aflição e desespero por não saber como sair daquela situação, pedi a ela que viesse morar comigo. Estávamos completamente sozinhas, num lugar deserto e grávidas. No final das contas, precisávamos uma da outra.

A gravidez dela estava bem avançada. A minha não ia bem. Passei muito mal e com sangramentos durantes meses. Numa manhã acordei com dores tão fortes e acabei desmaiando. Quando acordei e dei por mim, Feigel estava em prantos, toda ensangüentada. Disse que eu tinha abortado, que tinha feito de tudo, mas não teve jeito do bebê esperar o tempo certo. A luz que estava sendo projetada da janela para a minha cama não deixava dúvidas. Ali tinha havido um campo de batalha. A cama estava empapada de sangue. Havia uma grande bacia com água e panos sujos por todo o quarto. Todo o resto do dia foi cheio de cuidados. Feigel enterrou o bebê, que mal cabia na palma de sua mão, embaixo de uma tamareira que ficava no quintal da casa. Fizemos orações e cantamos até chegar a noite. O resto da semana foi pensando, como dizer ao seu pai que não estava mais com o filho, que ele tanto esperava, dentro de mim.

Um mês havia se passado e agora era Feigel quem sofria as dores do parto. Acordei de madrugada com ela gemendo e pedindo água. Não deu meia hora e nascia uma menina de cabelos avermelhados, toda rosada. Aquele momento ficou congelado em nossas lembranças. Passou um mês quando Feigel com sua menininha nos braços, arrastando os pés e a alma, me disse que tinha achado uma solução para o nosso destino. Era um fim de shabat. Tínhamos rezado, cada uma em seu Livro Sagrado. As nuvens estavam pesadas no céu, como há muito não se mostravam. O ar tinha uma eletricidade palpável. Feigel parecia um anjo em brumas, vestida com sua camisola branca de algodão. Temi por aquele instante. Vi lágrimas em seus olhos e seu silêncio hermético. 

Ela acariciava a filhinha que trazia grudada em seu peito. Estava trêmula quando a colocou em meus braços dizendo: “É sua agora, você tem mais direito a ela do que eu”. Entendi aquele gesto e percebi o quanto estava sendo difícil para ela entregar-me o seu tesouro. Na manhã seguinte, ela voltou para morar no kibutz Berdichev, junto dos pais. Dois meses depois, o seu pai voltou para ficar definitivamente conosco. Você se tornou nossa filha, por causa daquele amor que ela lhe tinha.

Hessa se levantou dando um salto. Ficou parada, imóvel olhando a barraca de frutas secas. Não se atreveu a respirar quando viu Feigel aparecer na porta com um sorriso para elas. Belqis levantou-se e foi cumprimentar a amiga. Abraçaram-se com os corações acelerados. Feigel estendeu as mãos a Hessa que engoliu em seco. Naquela hora da manhã, não havia testemunhas oculares. Hessa estava contraída pensando se por acaso alguém do Hamas a visse ali, com certeza imaginaria que estava fazendo reconhecimento de campo.

Quando tocou a mão de Feigel, sentiu cheiro de damasco. As três entraram na tenda e se sentaram entre as caixas de frutas. Tudo ali exalava uma promessa. À medida que a conversa avançava, Hessa ia desvendando um interminável segredo que até agora só lhe tinha feito bem. Tinha os olhos marejados de lágrimas. Sentiu que seu coração estava assombrado e envenenado por um ódio que não era mais seu. Aquela mulher judia que falava com uma voz tão calma, não podia ser uma inimiga. Ela tinha feito de sua vida um encontro, e permitiu que o vento arrastasse aquelas nuvens negras que um dia pairou no mesmo céu de Belqis, sua mãe. Abraçaram-se na despedida e quando Feigel segurou as mãos de Hessa, firme, mas cheia de ternura, disse-lhe: “Minha querida, o mundo estaria bem melhor sem mitos, sem religiões e sem filosofias. Muita crença atrofia o cérebro, aprendi isso à duras penas. Seja livre dentro de você mesma. Ter consciência das coisas é o melhor caminho a se tomar. Vá e viva uma vida simples e longa. D´us nos fez para a felicidade e ela só existe dentro de nós mesmos.”. Belqis e Feigel olharam-se com cumplicidade.

Hessa chorou muito naquela noite. Secretamente, gostou de ser uma judia, pois admirou a maneira de ser de Feigel. Uma sensação de sombra que se afasta foi o que sentiu quando se desligou do movimento do Hamas. Uma semana depois, um outro em seu lugar se explodiu no mercado de Jerusalém. Feigel estava fazendo compras no porto, quando Belqis lhe telefonou preocupada.

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