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quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Os Pássaros

Ilustração de Françoise Deberdt


Quando fui secretária num colégio na cidade de Guarapari, no Espírito Santo, conheci um professor de português chamado Sílvio Gomes da Silva. Ele era uma dessas pessoas que, quando se conhece, queremos logo levar para nossa casa. Tinha sido Pastor Protestante na igreja Batista por trinta anos. Agora vivia somente para os seus alunos.

Um dia no colégio, estávamos fazendo juramento à bandeira, quando o mastro se partiu em dois, indo cair na cabeça de dona Valdivina Luz Divina, professora de matemática. Foi um baque seco e oco e ela passou dessa para melhor, como gostamos de acreditar. Conhecemos, naquele momento, os meandros da morte ceifeira, que vem num rompante de susto e indeciframento, deixando todos suspensos no ar. Nós sabíamos que dona Valdivina, tinha por direito, conquistado a vida, concluída naquele momento, apesar de nossa constatação. Ela regressava ao desconhecido. E ficamos assim, sem nossa professora de matemática e com um nó na garganta perante a presença da morte.

Logo depois do funeral, o diretor ligou para um amigo, para saber se conhecia algum professor que pudesse substituir a falecida. Não obteve nenhum resultado a sua procura, ninguém estava disponível para aquele cargo. O diretor já estava ficando sem credito perante os pais dos alunos. O diretor começava a se desesperar, quando apareceu no colégio um homem se dizendo professor de matemática, ofereceu-se ao cargo.

Cornélius Adolphus Müller Pirassununga, esse era o nome do sujeito mais estranho que tinha aparecido por aquelas bandas. Filho de mãe alemã e pai mineiro, tinha uma aparência deveras diferente. Pequenos olhos azuis, quase nipônicos, cabelos cor de palha seca, rosto anguloso e queixo quadrado, em cima de um corpo magro, comprido, com pele morena, queimada de sol. Não olhava nos olhos de ninguém e evitava qualquer intimidade.

Foi o começo de um tempo diferente naquele colégio. O professor Sílvio até que tentou se aproximar do Cornélius, mas aquele olhar azul, vago e frio, cortava o ar e punha uma barreira invisível entre eles. Nenhuma alma vivente atravessaria aquela porta sem se sentir num deserto. O professor Sílvio mal sabia, mas o destino estava tramando uma macabra estória.

Fazia seis meses que o professor Cornélius estava na função e apesar de muitos alunos se sentirem apavorados com a possibilidade de serem chamados para uma sabatina no quadro negro, o aprendizado da matéria estava sendo assimilado.

Um dia todos os funcionários do colégio foram convocados para uma reunião de emergência.Estávamos apreensivos naquela sala que só era usada para organizarmos festas e fazer boletins. O diretor olhou-nos, um a um, tão profundamente, tão misteriosamente – como se o próprio sofrimento estivesse ali a olhar-nos. As palavras que iam saindo da boca do diretor cortavam o ar. Reconheci nelas um tempo de desaparecimentos e desespero.

Duas crianças do primeiro grau haviam sumido numa nuvem de mistério. Era um menino e uma menina. Tinham acabado de completar sete anos. Desapareceram quando voltavam para a casa depois das aulas.

Saímos dessa reunião como insones atordoados pela privação do sono. Caminhamos para as nossas casas, feito autômatos. Só muito mais tarde, choramos um pranto imposto pelo desconhecido. Perdíamos um tempo de paz.

Naturalmente que aquela semana foi atípica. Os agentes policiais nos investigaram como se fossemos os culpados. Estavam doidos por uma pista. Refizeram varias vezes os passos das crianças tentando descobrir um fio condutor, mas sem sucesso.

Foi nessa época que me aproximei do professor Sílvio. Nós estávamos desesperados com a possibilidade das crianças estarem sofrendo. A polícia tinha parado as investigações por absoluta falta de pistas. Fizeram um estardalhaço nos três primeiros dias, mas como o caso não se aclarava, ficara na pilha dos não esclarecidos e caminhava para o esquecimento.

Um dia o professor Sílvio me contou, ter sonhado com bando de pássaros estranhos que falavam com ele, mas ele não conseguia entender o que exatamente eles lhe pediam. Na manhã seguinte, quando já se preparava para ir trabalhar, passando pelo portão, verificou como sempre a caixa do correio. Apanhou um envelope endereçado a ele. Virou o envelope para ver quem o tinha enviado, mas não tinha remetente. Quando abriu a carta, encontrou colada no meio da folha, uma pena branca ensangüentada. Aquilo foi um tremendo choque. Sabia que o sonho tinha sido um presságio.

Qual não foi nossa surpresa naquela manhã, quando soubemos que haveria outra reunião. Fomos avisados que mais duas crianças do colégio tinham desaparecido. A reunião já tinha começado, quando o professor Cornélius chegou. Quando ficou a par dos acontecimentos não teve reação nenhuma. Seu rosto impassível não moveu um músculo sequer. Olhei para o professor Sílvio e vi quando duas lágrimas caíram dos seus olhos, e ao saímos da reunião, ele sufocava um choro.

Depois das aulas, combinamos um passeio. Estávamos em comunhão frente aqueles fatos e decidimos fazer alguma coisa para descobrir o que quer que fosse para ajudar aqueles pais desesperados.

Em Guarapari não venta muito, o ar é seco e o calor sufoca, mas naquela tarde ventou como nunca. As copas das árvores balançavam fazendo um som sinistro como um grito de socorro. Arrepiei-me quando o professor Cornélius surgiu não sei de onde, andando a passos largos e cabeça empinada. Seguiu seu caminho sem ao menos nos olhar para cumprimentar. Parecia um lunático, andando como um fantasma, estranhamente hipnótico, como se estivesse drogado por algum narcótico. Seus cabelos dançavam em desalinho como um campo de trigo maduro. Vimos quando uma pena saiu de seu corpo e ficou voando em redemoinho indo cair bem no peito do professor Sílvio.
Ele pegou a pena e comparou-a com a da carta que tinha recebido de manhã. Eram iguais.

Ele perguntou-me o que eu achava de tudo aquilo? E eu respondi que só mesmo fazendo uma visita surpresa ao Cornélio.
Não queríamos avisar a polícia sem ter absoluta certeza do que se passava em nossas cabeças, mas tínhamos que ter um plano.

Combinamos que ele iria até a casa do Cornélius sozinho, sondaria o terreno e me chamaria depois. Eu ficaria no mercadinho do Tadeu Tadado aguardando o sinal. Como o mercadinho ficava logo atrás da casa do Cornélius, daria perfeitamente para enxergar qualquer movimento que o professor Sílvio fizesse. O professor me disse que se ele não voltasse em trinta minutos eu acionasse a polícia. E se foi.

Entrei no mercadinho e fiquei por ali como quem fosse comprar alguma coisa. O senhor Tadeu só me olhando, esperando o pedido. Vi que ele tinha colocado uma máquina de assar frangos e perguntei:

Quer dizer que o senhor agora tem frango assado? Ele mais que depressa foi respondendo:
Tenho sim, dona! E eles são abatidos aqui mesmo. Assim eu tenho certeza que chegam bem fresquinhos para a minha freguesia.
Fiquei pensando naquelas duas penas brancas que tanto tinham nos assustado e falei:
Ah é! Que interessante! E as penas? Devem sobrar um bocado e penas então, não é? E ele falou: sobravam, mas agora eu vendo todas elas para um galego, professor de um colégio.
Fiquei olhando para a cara do senhor Tadeu que não estava entendendo nada do meu interesse pelas penas. Perguntou-me se também precisava de penas e eu mais que depressa respondi que não. E ele meio sem graça perguntou: e a senhora vai querer um franguinho assado? O que lhe falei de sopetão, ainda com as penas na cabeça: dois, embrulhe dois, por favor.

Sai de lá trançando as pernas e fui direto para o lugar onde o professor Sílvio me fazia sinal. Nesta vida, querendo ou não, há as horas medonhas, aquelas que temos que enfrentar enquanto acordados, e essa foi uma daquelas horas. O professor Sílvio estava lívido, seus olhos estampavam um terror de visões irreais. Sentamos a meio fio da calçada, pois ele não podia mais andar. Aos poucos, entre uma palavra e outra fui entrando num mundo deformado e ilusório que assombraria qualquer mortal.

Ele me contou que, chegando à casa de Cornélius, foi logo entrando pelos fundos. Havia um quintal rodeado de arbustos e teve que forçar sua entrada por entre eles. A casa estava toda fechada, e as janelas tinham grades. Tudo estava em silêncio. Ele ficou pensando como entraria ali para tentar descobrir alguma coisa. Sabia que o que estava fazendo não era correto, aquilo era um caso de polícia, mas não iria chamá-la sem ter certeza. Estava pensando como forçaria a porta quando ouviu o Cornélio saindo. Esperou que ele desaparecesse e foi até a porta da frente, mas ele a havia trancado. Voltou para o quintal e começou a forçar a porta dos fundos, mas ela também estava fechada. Portas fechadas, janelas com grades, assim não conseguiria entrar na casa, além do mais, não era um doido para tentar arrebentar a fechadura, com certeza acabaria na cadeia por arrombamento. E se o Cornélius não tivesse nada com essa estória. Ia já desistindo quando tropeçou no capacho. Foi aí que descobriu a chave. Foi uma sorte tremenda. Abriu a porta dos fundos sem problemas e foi entrando na cozinha com muito receio. Foi para a sala e não viu nada. Estava subindo as escadas quando ouviu um som de pássaros cantando. Era uma música e estava tocando em algum lugar da casa. Desceu as escadas e apurou os ouvidos. O som vinha debaixo da escada. Viu que ali não tinha nada, além de um tapete grosso e um enorme baú. Ficou parado, olhando tudo aquilo sem entender nada. Foi quando teve a idéia de arrastar o baú. Forçou-o para movê-lo de todos os lados, mas ele estava muito bem colado no chão. Quis abrir a tampa, mas ela estava bem trancada com um enorme cadeado. Procurou pela sala algo que pudesse arrebentar o cadeado e encontrou uma vara de ferro de pegar brasa na lareira. Arremessou-a com toda força sob o cadeado que se rompeu e assim ele pode abrir o baú. O baú não só estava vazio, como não era um baú, e sim, uma escada camuflada.

Nessa hora ele me disse que tremeu. Não sabia se voltava para me avisar, ou se seguia a diante, para ver mais. Viu que ainda tinha treze minutos do nosso tempo combinado para que eu chamasse os policiais então decidiu ir em frente. Tinha que ter certeza do que estava acontecendo, antes de começar um escarcéu. Até aquele momento ele só tinha suposições, mais nada. O que ele procurava eram evidências que comprovassem nossas duvidas. Descer aquela escadinha foi à prova de fogo. Foi descendo, descendo, fantasmagourando um pavor eminente.

Viu ali, um mundo desconhecido, um mundo que não podemos conceber. Não podia mais voltar depois de vê-los. Dentro de uma gaiola, havia cinco casais de pássaros, recobertos de penas brancas. Tinham longos bicos coloridos e longas penas na cabeça. Por baixo do bico, provavelmente arrancado de algum pássaro, havia fita adesiva fechando a boca. Seus braços estavam amarrados nas costas, escondidos sob as penas. Estavam todos juntos, um mais apavorado que o outro. Os pássaros que o professor havia encontrado eram as crianças desaparecidas. Elas, quando perceberam a presença do professor, começaram a gemer um pedido de socorro. Ele acalmou-as dizendo que imediatamente telefonaria para a polícia e chamaria os seus pais. E assim o fez. Dali mesmo, ligou para o delegado que nem esperou o final do relato e já estava com toda a tropa nas ruas.

Vimos quando eles chegaram e nos pediram silêncio. Enquanto os policiais estavam lá dentro da casa, o professor me perguntou sobre os dois pacotes que eu carregava. Disse-lhe que era frango assado. Ele olhou-me sem nada entender e falou: onde você arrumou isso? E eu lhe disse que tinha sido no fornecedor de penas do Cornélius. Dei um frango para ele que mereceu como premio pela coragem de enfrentar tudo aquilo.

Assim foi que o professor Sílvio descobriu as quatro crianças que tinham desaparecido do colégio e mais seis outras, de outras cidades. O Cornélius foi pego em flagrante quando entrava no baú. Os policiais ficaram de campana na casa só esperando que ele chegasse e se denunciasse. Foi preso sem ter tempo de pensar em fugir. Depois de processo todo, acabou sendo internado num manicômio. Depois ficamos sabendo que ele era um maníaco exilado numa doença rara que o fazia delirar num mundo irreal de pequenos pássaros crianças. Se ficasse solto acabaria tendo sua floresta tropical particular.

O professor Silvio foi recebido no colégio com festa. Diziam que ele era o salvador das crianças. Ele me disse que o que gostaria de salvar mesmo eram alguns homens, mas que não há homens salvadores. O maximo que um homem pode ser é um despertador, alguém que mostra um caminho. Somente se salvará quem o quiser. Para homens com Cornélius não haveria salvação jamais.

Aquelas crianças ficaram bem e se recuperaram fazendo terapia. Nós todos aprendemos a dar valor aos pequenos sinais. A carta que o professor recebeu ainda é um mistério, talvez
tivesse sido um desses sinais que nos chega não se sabe de onde, mas sabemos por quê.

Fim

2 Comentários:

  • Rachel já te disse e vou repetir...
    Voce tem um longo caminho a percorrer com grandes emoções.No seu primeiro evento estarei lá...kkk
    Parece que estou no cinema em frente a uma grande tela.
    Vai amiga, lute pelos seus direitos,e vença com amor.
    Estaremos aqui assistindo a sua
    liberdade de voar.
    Beijos.

    Ana Maria

    Por Blogger arterapiaanamaria, às 31 de outubro de 2007 14:18  

  • Rachel, me transporto e vivo os seus textos, entro neles e eles em mim.
    Acabo de voltar para o colégio novamente pois novamente li seu texto.
    Um livro de contos seria o ideal amiga e quando editar eu quero um.
    Beijos.
    Marta Peres

    Por Blogger universo em poesias, às 8 de novembro de 2007 13:37  

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