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terça-feira, 13 de novembro de 2007

Frio na Espinha

Ilustração de Alan Lee


Eu e umas amigas fazemos, uma vez por mês, uma reuniãozinha para segurar a amizade pelo estômago. Somos em cinco e cada uma traz um prato cheio de delícias para passar a tarde contando casos, bordando, pintando ou o que dá na telha. Eu faço refrescos de frutas e sorvetes, assim passamos uma tarde que sempre se alonga até a noite bater na varanda.

Esse é um daqueles casos verídicos que ficou impresso na minha memória.

A família Nunes, mui rica, chegada numa dinheirama de lascar e metida na política até os fundilhos tinha, por patriarca, o seu Nune - Durval Nunes – tido pela mulherada como um pedaço de mau caminho. Donana – Ana Nunes – dançava um xaxado com o seu Nune por conta das escapadas dele. Tinham um hotel na cidade que era freqüentado pela nata politiqueira e pelos maçons, que vira e mexe estavam fazendo reuniões no salão do hotel.

Ana Maria, uma de nossas amigas de reunião, era neta do seu Nune e Donana. Quando tinha dez anos o pai Osvaldo bate com a caçoleta e parte dessa para melhor por conta de uma nefrite “maledeta”. Fica o seu Nune, de bom gosto, no encargo de sua educação. Deusdeth, mãe de Ana, de bom grado deixa que ela seja mimada por seu pai. Ela vivia no cangote do Nune enrodilhada por uma manta, indo por tudo que era canto, para cima e para baixo, era o chodó dos Nunes.

A bichinha tinha tanto amor por ele que mesmo depois de mocinha ia visitá-lo sempre que podia. Vai daí que numa dessas vezes, quando já entrara na idade das malicias, os peitinhos despontavam, pois que ela, toda faceira, se mete sozinha no trem que levava a casa dos avós. Era dessas viagens de tempo esticado. Saiu com sol e chegou com a lua. O trem já apontava na estação e Ana seguia tranqüila, pois o avô estaria a sua espera.

Acontece que não sei por que cargas d´água o trem parou para baldear uns crentes que cantavam rezas e uma confusão de gentes que não queriam pagar os bilhetes, entraram fazendo o maior pampeiro. O trem se atrasou mais de uma hora nesse entra e sai descompassado.

Quando já estavam entrando na estação as pessoas começaram a se levantar, ajeitando os fardos e os sacolões. De repente um sujeito grandalhão de cara avermelhada, resolveu se entalar bem no vão entre os bancos onde estava a Ana Maria e assim, sem mais nem menos, lhe mostrou o pinto. Como esse tal de pinto era um negócio muito grande, Ana não atinou coisa com coisa, mas quando ele estendeu aquela mãozona para encostar-se nela, ai sim, foi um deus nos acuda. Ela passou por baixo daqueles braços peludos, estendidos como estacas e se “pirulitou” do trem. Acontece que o avô, de tanto esperar, desistiu e voltou para casa, achando que ela tivesse mudado de idéia. Sabe como são essas meninas...

Já era noite e Ana Maria teve que amassar um barro, andando até o seu destino. Uma distância de quinhentos metros separava a estação da casa dos avós dela. Caminhou que nem barata tonta, indo de um lado a outro da rua, para despistar os passos que percebeu logo atrás de si. Enquanto andava ia vendo a pobreza do lugar, das casinhas, os gritos, a choradeira das crianças. Jurou que estudaria e faria tudo para não ser arrastada naquele turbilhão de miséria. A casa do seu Nune era a melhor do bairro, depois da do prefeito, é claro!

Ana Maria sentiu que não daria tempo de chegar à casa sem que aquele sujeito cascudo topasse com ela. Então se preparou para o pior. Tinha sempre um spray de pimenta malagueta, preparado pela mãe que instruía a filha a não pensar duas vezes antes de usá-lo. Ela dizia: use antes e pense depois, senão poderá ser tarde demais. Foi o que Ana Maria fez, assim que viu aquele pintão balançando em sua direção. Para completar o serviço, ela ainda teve o espírito de espirrar um jato bem generoso de pimenta no dito cujo, que já se podia considerar acanhado.

Ele ficou rolando de dor que nem um bicho acuado. Ana Maria correu com quantas pernas Deus havia lhe dado, chegando à casa dos avós bufando que nem cavalinho bravo. Nem bateu palmas, foi logo pulando o muro, que nem um ladrão da noite.

O avô levou um tremendo susto quando ela apareceu na porta da cozinha de olhos arregalados, estava quase caindo de tanto medo. Donana foi logo acudindo com uma tigela de água, fazendo-a se sentar num banquinho de taquara, benzendo um sem fim de preces ao seu padrinho Cícero.

Ana Maria descreveu o ocorrido - tim tim por tim tim - e o seu Nune matou a charada na hora dizendo:
Esse filho da peste é o Raimundinho! É filho do prefeito e se acoberta de tudo que é safadeza por estar nas asas do pai, mas há de chegar aqui um cabra desses com cabelo nas ventas e por fim nessas indecências que ele, vira e mexe, apronta com as moças donzelas daqui. Não tem semana que esse famigerado num apronta das suas.

Naquela noite Ana Maria sonhou que fazia parte da turma do Lampião e que ele lhe ensinava como pegar o manhoso, afilhado do cão, filho de ordenança. Conversa vai e tais e tais, riscou na mão de Ana uma figura.

Quando de manhãzinha ela se apruma para sentar-se à mesa com os avós e começa a atacar uma tigela de açaí, vê o desenho na palma da mão. Lembrou-se do sonho e contou ao avô, que olhou o desenho na mão da neta. Ele chama Donana para olhar também e ela diz:
-Isso tá me lembrando aquela sua fantasia de gorila que o seu avô comprou em Salvador, para você pular o carnaval.
E não é que parecia mesmo! Que estranho!
Estranho nada, Ana Maria se lembrou que apagou uma vela antes de dormir e que com certeza foi esta que deixou uma sujeira de fuligem em sua mão. Só faltava o Lampião aprontando das suas.

E assim foram conversando durante toda a manhã sobre o ocorrido e Ana Maria ficou sabendo da infância de Raimundinho.

Ele nunca foi flor que se cheirasse. Era briguento e mandão. Queria ser o primeiro em tudo e tomava na marra se não lhe fizessem as vontades. Numa dessas, uma vez apareceu um circo na cidade e as crianças ficaram encantadas. O circo tinha uma porção de jaulas com vários animais. Raimundo para se gabar com as meninas, disse que entraria sozinho na jaula dos macacos. E entrou – saindo em seguida com dois quentes e três fervendo -. Quando o macaco macho se viu frente a frente com o Raimundinho, foi se aproximando devagar até ficar focinho com nariz, quase colado. Disseram que o Raimundinho molhou as calças nessa hora. O chimpanzé deu um berro tão alto que o tratador apareceu na hora, retirando o coitado do menino sem fala e duro de pavor.

Aquilo foi o fim do Raimundinho que não quis, por nadica desse mundo, voltar à escola, isso por causa das gozações que teve que aturar. Acabou que o prefeito colocou o menino para estudar em outra escola, bem longe da cidade. Quando voltou, já era mocinho, ai começou essa lambança desavergonhada com as meninas.

Ana Maria teve um estalo depois de saber tantas coisas da vida do jaguncinho. Foi à caixa de tralhas que ficava no quartinho de guardados da avó e pescou de lá de dentro sua fantasia de gorila.

Aquela noite prometia...

E prometeu mesmo. Ana se vestiu de gorila e, para completar a fantasia, pegou um chouriço da despensa. Escolheu o maior e mais gorducho, amarrando-o no meio das pernas. Se tudo desse certo ela estaria vingada do barba azul naquela noite.

Enquanto os avós estavam sossegados ouvindo a Rádio Nacional, ela, sorrateiramente, se esgueirou pela calçada até a casa do Raimundo. Subiu pelo muro que era feito de tijolos como uma escadinha e pulou no jardim. Contornou o quintal, olhando com cuidado onde ficava a janela do infeliz.

Por um bom acaso a janela dele estava aberta e Ana Maria pode vê-lo sentado na cama. Ele lia um livro bem em frente ao guarda-roupa. Era um desses guarda-roupas com um grande espelho na porta. Ela subiu no beiral da janela e ficou esperando ele se virar. Estava ali, estatelada, esperando o melhor momento para dar o bote quando um vento forte bateu em suas costas. Na mesma hora ela sentiu um frio na espinha e, o mais incrível, é que pareceu que o Raimundinho também sentiu alguma coisa parecida, pois se estrebuchou todo, tremelicando que nem passarinho quando vê gavião.

Levantou a cabeça e quando viu o gorila com aquele pintão preto em posição de ataque, gritou tão alto, que na vizinhança inteira não se soube qual o grito foi maior, se o de Ana, ou o de Raimundinho, pois os dois berraram para valer, um com medo do outro.

Aquela história correu na cidade como rastilho de pólvora. De manhã não havia
viv´alma que não soubesse que o Raimundinho tinha sido violentado por um macaco. Ana Maria, mais do que depressa, voltou para a sua casa, nem queria conversar sobre o novo caso da cidade.

Voltou por aquelas bandas muitas outras vezes e sempre ouvia a mesma lenga-lenga de como o Raimundinho tinha sido comido por um macaco. Ele nunca mais saiu de casa. Tinha ficado com tanto medo de ser atacado pelo macaco que se isolou do mundo. Dizem que até hoje, é só bater um ventinho, que ele se tranca e nem com reza brava aparece na janela.

FIM

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