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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Longe, muito Longe!

Tela de Amadeo Modigliani



Quando eu entrei em casa naquela noite minha mãe me olhou apreensiva. Apontou com a cabeça o escritório de meu pai.

- O que foi, mamãe?
- Ele quer lhe falar, já perguntou por você por duas vezes.
- A senhora sabe do que se trata?
- Nem imagino!

Lavei o rosto e fui ter com ele. Entrei naquele escritório, sempre abarrotado de livros e caixas de amostras de brinquedos chineses. Estava um pouco desconfiada, pois por várias vezes ele tentou me persuadir em mudar de curso na faculdade. Eu fazia Artes Plásticas e ele queria que eu fizesse Administração de Empresas. Isso estava fora de cogitação. Eu até que entendia sua preocupação. Era a filha mais velha e deveria sucedê-lo na empresa. Minha irmãzinha Yasmin só tinha cinco anos, estava longe dessas preocupações.

Entrei no escritório e vi quando ele jogou um envelope amarelo dentro de uma gaveta, colocando a chave dentro de um porta-lápis. Fiquei parada na soleira da porta, olhando seus movimentos e senti no ar uma eletricidade faiscando.

- Entre Jamile, sente-se!
- Boa noite, papai! O senhor queria falar comigo?
- Queria não, quero!
- Do que se trata?
- É sobre uma coisa muito delicada, que na verdade, não queria que você soubesse, mas diante de certos fatos, não vejo como não alertá-la.

Fiquei olhando para ele, ali, tão apreensivo e comecei a me inquietar.

- Fale papai, por favor!

Vi que ele engoliu em seco, esfregando as mãos nervosamente. Gotas de suor brotavam de sua fronte e como para buscar forças para o que tinha que me dizer, deu um giro em sua cadeira, levantando em seguida vindo em minha direção. Sentamo-nos em um sofazinho que estava livre de tantas caixas espalhadas e naquele momento, pude perceber o quanto meu pai estava preocupado. Ele estava profundamente abatido e triste.

- O que foi, doutor Daher, o que pode ser tão escabroso para deixá-lo desse jeito?
- Não brinque, Jamile, pois o que tenho para te contar é sério!

Meu pai era um homem exemplar. A família sempre esteve em primeiro lugar. Ele adorava minha mãe e mimava minha irmã caçula. A firma de importação e exportação Tim-Toy estava cada vez mais conhecida pelo bom relacionamento de meu pai nos negócios. Era uma firma que nascera logo depois da formatura de meu pai. Ele e mais um amigo da faculdade, Theodorus Papakoulos, abriram um negócio que prosperara graças aos contatos que fizeram numa feira na China. Começaram a importar brinquedos. E foi sobre esse sócio Theodorus, conhecido dentro da firma como “Olho de Lince” por descobrir novas e boas mercadorias para a firma, que nossa conversa começou.

- Jamile, eu quero que você saiba que fiz um seguro de vida em nome de vocês três. Isso para o caso de eu vir falecer.
- Credo, papai! Que conversa mais estranha. O senhor não acha que está muito jovem para pensar em morrer?
-Sei, mas tenho lá meus motivos.
- E eu posso saber quais motivos são esses?
- É sobre Theodorus.
- 0 seu sócio?
- Sim, descobri irregularidades no transporte de mercadorias que vêm da China.
- Que tipo de irregularidades?
- Ainda não tenho certeza, mas quero alertá-la para que fique de sobreaviso, caso me aconteça algo.
- O senhor está me pondo medo!
- Não, querida, é só uma intuição que estou tendo. Não se esqueça que costumo ser prudente. Quero que esteja amanhã na firma as 9:00 horas. Contratei um rapaz, recém formado em Administração de Empresas, que vêm com boas recomendações. Ele se chama Lew Doc Chang e é chinês.
- Nossa, que nome! Lew, não é um nome americano?
- Sim, mas os chineses que estão fora da China, adoram dar nomes americanos aos filhos.
- É verdade, tenho um colega chinês que se chama Franklin.
-Jamile, tem outra coisa que quero te pedir.
- Sim, papai!
- Quero que tome conta de Yasmin. Não deixe que ela saia sozinha por nada desse mundo.
- Mas, papai, isso vai ser praticamente impossível! Ela tem a escola e o balé e além de tudo, ainda tem a vidinha social.
- Por favor, Jamile, fique de olho na pequena. Depois da reunião que eu tiver com o Theodorus volto a conversar com você, explicando os detalhes de minhas suspeitas.

Essa foi à última conversa que tive com meu pai. Na noite seguinte, ele foi assassinado com um tiro à queima roupa no estacionamento da firma. Fiquei preocupada com o meu pai naquela noite, anterior ao crime. Sabe Deus que angústia o acompanhou. Estava tão preocupado com a segurança da família e principalmente com Yasmin. Mamãe ficou muda por uma semana. Eu tranquei a faculdade até saber o que fazer, depois que passasse aquele pesadelo. Estava indo à firma todos os dias e cada vez que chegava àquele lugar, onde meu pai tinha dado sua vida, não conseguia agir e pensar de forma diferente dele. Parecia que tinha sido feita para comandar e exercer aquela função de compra e venda. O senhor Lew se tornara o meu braço direito. Estava aprendendo a administrar com ele.

Contratei um segurança para Yasmin que me ligava de hora em hora. Assim pude trabalhar sossegada. Theodorus quase não aparecia. Quando vinha era para se fechar em sua sala, dar telefonemas interurbanos e sair calado. Tínhamos muitos negócios com a China e a contratação de Lew tinha caído como uma luva, pois ele falava e escrevia chinês. Um dia, recebemos um telefonema da alfândega portuária, dizendo que um carregamento de brinquedos da “Tim-Toy”, tinha sofrido uma tentativa de roubo. Eu e Lew seguimos imediatamente para o porto. Lá chegando, fomos alertados pelo encarregado do almoxarife que dois homens, possivelmente gregos, tinham tentado arrombar o contêiner de nossa firma. Fomos ao local e vimos o lacre arrebentado. As câmeras de segurança dispararam, provavelmente quando foi ouvido o barulho da pancada e presença humana no local. O guarda ouviu dois sujeitos falando grego, quando passaram por ele em disparada.

Quando eu soube desse detalhe da língua que falavam, um mau pressentimento passou por minha cabeça. Não sei porque, liguei para o segurança de Yasmin e proibi que saíssem de casa naquele dia. Abrimos o contêiner e vimos que, a princípio, estava com as mercadorias em ordem. Pensamos: eles não tiveram tempo de roubar a carga. O Lew acionou a firma para que mandassem os caminhões de carga ao nosso depósito no porto. Estávamos sossegados quanto às mercadorias e fechávamos a porta quando ouvimos alguém tossir lá dentro do contêiner. Olhamo-nos com indagação e, assustados, chamamos o encarregado novamente e pedimos uma lanterna. Subimos os três no baú de metal e por entre as caixas bem amarradas encontramos uma diferente. Estava com pequenos furinhos. Eu falei:

- Hei, quem está aí?

Ouvimos um chorinho miúdo de criança pequena. Retiramos as fitas de metal que prendiam a caixa e lá dentro, vimos uma menininha de olhos puxados terrivelmente assustada. Estava enrolada em cobertores, com uma garrafa de água e barras de cereais para comer. Lew falou em chinês com ela e começou a acalmá-la, se é que era possível, tamanho o pavor da pequena. Era uma menina bem miúda, muito bonita, com os cabelos longos e negros. Devia ter uns seis anos. Peguei-a no colo e fomos para o carro. Fiquei sozinha com ela, enquanto o Lew despachava as mercadorias para os nossos caminhões. Enquanto esperava, dei a ela uma barra de chocolate que estava no porta-luva e ela foi se soltando, parou de chorar e se aninhou em meu colo com segurança. Lew voltou e vendo a cena, perguntou:

- Tudo bem por aqui?
- Aparentemente, sim.
- Você viu algum documento com ela?
- Não, só a roupa do corpo.

Lew perguntou o nome da menina e ela disse-lhe num sussurro que se chamava Lin Chen Chung. Vimos que ela estava emocionalmente e fisicamente esgotada. Então, levamos a menina à minha casa. Lá, teria Yasmin e juntas, poderiam brincar. Crianças costumam se entender nessas horas. Minha mãe ficou preocupada com a situação e disse que teríamos de informar ao consulado da China o paradeiro da menina. Eu e Lew preferimos esperar, pois ela estava ainda muito assustada com tudo o que estava lhe ocorrendo. Primeiro queríamos que ela descansasse, se alimentasse e só depois, tentaríamos entender aquela viagem clandestina no contêiner da firma.

Contratamos um investigador particular para descobrirmos o que estava por trás de tudo aquilo. Demorou um mês para que a podridão viesse à tona. O investigador fôra à China, no endereço que a menina Lin tinha nos passado. Lá, ele soube que os pais de Lin tinham morrido esfaqueados. Isso aconteceu logo depois da visita de dois gregos na fábrica de bichos de pelúcia onde os pais de Lin trabalhavam.

Eu, enquanto isso, ia tocando a firma junto com Lew. Tudo estaria quase perfeito se eu não tivesse resolvido arrumar o escritório de meu pai, na noite, depois de saber do paradeiro dos pais de Lin. Enquanto estava lá, arrumando aquelas caixas e livros, me lembrei de meu pai tentando esconder alguma coisa na gaveta. Fui direto ao porta-lápis apanhar a chave da gaveta. Abri-a com um certo medo, pois me lembrava da conversa estranha sobre seguro familiar e segurança de Yasmin. Naquele dia, não entendi o motivo para tanta preocupação, mas agora, abrindo o envelope amarelo, pude entender o significado de tudo aquilo. Juntando todos os fios que estavam soltos, pude ver a trama diabólica que se formava em minha frente.

Meu pai tinha descoberto uma rede internacional de pedófilos, chefiadas por Theodorus Papakoulos. Eles raptavam crianças a partir de cinco anos e as vendiam a preço de ouro para pedófilos, fanáticos perturbados, todos multimilionários. Ficou desesperado, quando viu fotos de Yasmin saindo da escola, num envelope na sala do sócio. Ela seria uma das pequenas vitimas a ser raptada. Naquele envelope amarelo estavam fotos de varias crianças, inclusive de Lin, todas com o nome do pedófilo contemplado, escrito no verso. Quando o investigador chegou com a notícia da morte dos pais de Lin, descobrimos todo o esquema. Inclusive, que nossa firma servia para o transporte dessas crianças. Com todas as provas nas mãos fomos à polícia. Eles nos pediram sigilo absoluto, pois esses animais são como lesmas, escorregadios.

Depois que prenderam Theodurus, a casa caiu. De repente o mundo inteiro estava pipocando de pedófilos. Era o efeito dominó em ação. Naturalmente que a polícia não conseguiu pegar todos, pois essa cambada de canalhas são como erva daninha. O grupo do Theodorus foi desbaratado completamente. Depois que os ânimos sossegaram, pedi a guarda de Lin no consulado Chinês e tive sucesso, pois pude adotá-la como filha. Com essa reviravolta em minha vida, pude perceber que meu pai tinha razão. Eu deveria mesmo mudar a faculdade de Artes Plásticas para Administração de Empresas e foi o que acabei fazendo. Um dia, Lew me trouxe flores, se declarou enamorado. Acabei me apaixonando por aqueles olhos puxados. Nos casamos para a felicidade de Lin. Outro dia ela me perguntou se a China ficava longe. Eu a abracei e respondi: Sim querida, fica longe, muito longe! Mas não tão longe que não possamos um dia visitá-la.





7 Comentários:

  • Rachel!
    Muito oportuno!
    Muito mesmo,diante de tantos casos ,que temos tido conhecimento,principalmente através da internet.
    Como sempre,muito bem escrito.
    Bem dividido.
    Perfeito.
    Sem dúvida mais um belo conto fiçção-realidade,que merece ser premiado!

    Parabéns,escritora e doce poeta!
    É sempre muito gratificante ler-te!

    Por Blogger Dolores Jardim, às 11 de junho de 2008 às 19:19  

  • Belo Conto Rachel, é sempre um prazer ver o seu aprendizado, sua evolução constante. Sem falar que, gosto de competir contigo nos concurso rss.
    Nada como ter bons adversários para se dar o melhor no que se faz.

    Parabéns,como sempre!

    Por Blogger Danny Marks, às 12 de junho de 2008 às 02:55  

  • Maravilhoso;adorei,parabéns
    Se todas as crianças ,vítimas desses loucos ,tivessem a sorte da menina ;;;;;;
    Obrigada amiga por mais esse presente ;você sempre se superando
    Ùnica,singular,mágica;;;;beijaõ

    Por Blogger Unknown, às 12 de junho de 2008 às 03:02  

  • Dulce Rachel,MUITO BOM!
    És aquela máquina:)
    Gosto mesmo de ler os teus contos!

    Por Blogger "Scacição", às 12 de junho de 2008 às 08:14  

  • Rachel

    O conto prende a atenção. Senti falta de uma dramaticidade maior no assasinato do pai.
    Parabéns!

    Por Blogger Rachel Domingues, às 12 de junho de 2008 às 12:09  

  • Naava então vc gosta de sangue, rrr.
    Vou ver o que posso fazer por esse pai morto. Quem sabe eu reescreva sua morte para te deixar feliz.

    abç

    Por Blogger O que Cintila em Mim, às 12 de junho de 2008 às 15:16  

  • Muito bom o enredo do conto.
    Bom assunto, pra ser discutido.
    Parabéns, minha linda pela dedicação.
    Beijos, minha doceRaquel

    Por Blogger Ana Maria, às 30 de junho de 2008 às 14:30  

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