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sexta-feira, 7 de março de 2008

Flores Fora de Lugar

Tela de Enrique Medina


Dentro do peito, a dor aperta, as lembranças pesam. Os passos trôpegos seguem aos solavancos. Os lábios tremem, captando um choro miúdo que aos poucos se faz bem alto, desconexo e urgente. Segue recordando um tempo arcaico que era abafado com o peso incômodo de um corpo imundo. Tropeça no piso irregular do caminho. Vacila por entre as pedras das lápides silenciosas que a rodeiam. É impossível não prever o molhado de seus olhos. As lágrimas vêm, em camadas quentes, pipocando fagulhas de dor. O cérebro se agarra às lembranças como os ganchos de açougue que prende um coração. Foram tantos anos de gritos, de dor contida, sendo crivada de tormentos e amordaçada em silêncio que, agora, sentia somente essa vontade imperiosa de desforra. Foi rasgada em carne viva e ainda sente o gosto do sangue quente alimentando sua dor feroz. Que ninguém saiba desse mal horrendo que mutila e queima seu corpo febril. Não é mais vago seu querer vingança, é real, como a dor dos dias em que viveu sem ser. Ali, no âmago do gelo da morte, enterrado, em sepulcro raso, jaz a carniça maldita de um mal querer. Segue, ancorada, dentro do que lhe resta de angustia. Desviando-se, aos poucos, da escuridão dos seus dias. Renasce de seu túmulo em vida. Sobe cada vez mais para além do fundo. Nesta exata caixa, tumba maldita, onde seu algoz treme e grita arrependimentos, ela, remói sua despedida. Lágrimas ácidas chegam a cegá-la. Dentro da garganta, vem um gosto amargo que se alastra num frenesi preciso. Sem pensar perdão, chuta para o alto o vaso de flores que, como um projétil, se debate ao léu. Ri de si, livre de remorsos. Alisa os cabelos e, apesar do tremor das mãos, é invadida por um gozo pleno, de estabelecer em vida, sua paz vindoura.

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