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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Quem Semeia Vento...

Tela de Luis Royo


Eu estava estudando como louco para um concurso público que, se ganhasse, poderia
ter um tempo maior para as coisas que realmente gostava de fazer. Estava empenhado nessa nova jornada, mas precisava me garantir com algum dinheiro todo mês. Fui até a casa de um amigo, perto dos Campos Elíseos, buscar uns livros emprestados. Foi quando vi um anúncio pregado na porta de uma floricultura - “PRECISA-SE DE AJUDANTE GERAL”.

Pensei - quem sabe não fosse um serviço tranqüilo -, que eu poderia ter tempo para estudar entre uma entrega de flores e outra. Decidi me candidatar.
“Perfume de Gardênia”, este era o nome da floricultura. Ficava em um sobrado de estilo inglês, bem na esquina da rua principal com uma discreta rua lateral.Tinha duas entradas, uma porta grande na frente da loja e outra pequena e discreta que dava para a ruazinha. Entrei pela porta da frente que foi logo me anunciando com o toque de um sino.

Atrás de um vaso de lírios, surgiu um delicado rosto de mulher. Alta, com enormes olhos verdes que brilhavam num rosto limpo e suave e uma enorme cabeleira vermelha que contra a luz parecia um astro incandescente. Tinha uns trinta anos e era linda como um anjo pode ser. Olhou-me quase tímida, deixando seu olhar perder-se entre as flores e o horizonte.

Era Nadia, dona da loja; aceitou-me como seu funcionário depois de uma longa conversa e telefonemas questionadores. Na manhã seguinte apareci com todos os documentos, preenchi uma ficha e comecei um trabalho, fácil, mas que tomava quase todo o meu tempo.

Aprendi rapidamente o fluxo da loja. Cuidava de repor as flores e o estoque das embalagens, fazia entregas nas proximidades do bairro e recebia o caminhão da Holambra, duas vezes por semana. Nadia fazia os arranjos, decorava a loja e cuidava da parte bancária. Atendia as pessoas com tanta delicadeza que eu não saberia dizer se compravam as flores pela beleza delas ou de Nadia.

Ela morava na parte de cima do sobrado e usava a porta lateral para entrar na casa. Tinha uma filha de dez anos, chamada Sônia, que ficava sempre em seu quarto quando não estava na escola. E uma tia que lembrava uma pintura renascentista.

Nadia era um tipo introvertido. Quase sempre calada e cabisbaixa, perdida em seu mundo interior. Muitas vezes eu via esse mundo transbordar de seus olhos. Disfarçava para não constrangê-la, mas aos poucos fui me envolvendo naquele mundo obscuro e submerso num lamaçal de tormentas.

Um dia, fui pego de surpresa por um vento que quase derrubou a porta principal. Em seguida, surgiu um senhor de uns cinqüenta anos, porte atlético e olhar investigador tapando a porta toda com seu corpo enorme. Parecia um lobo farejando sua presa. Nadia que estava atrás de uns vasos, imediatamente se abaixou, esgueirando-se silenciosamente para a saleta lateral, onde se estocavam as embalagens. Ele perguntou por Nadia e eu, percebendo a situação, disse que ela tinha saído e não voltaria mais naquele dia. Ele olhou-me de cima a baixo com ar de desprezo e saiu batendo os pés no ladrilho.

Nadia surgiu lívida e me olhou como um raio de luz a perder-se no ar. Vi a luz dançar-lhe nos olhos. Estava pálida como a água à sombra dos jarros de lilases e tremia como uma menina aterrorizada.

Naquele dia selamos nossa amizade e ela começou a me contar sua história de medo.
Nadia foi descrevendo aquele senhor com cara de predador como se fosse um animal possuído delo demônio. Era tanta dor em suas palavras que mal podia imaginar que ela falava do próprio pai. Que bastava vê-lo, para tornar-se uma torrente incerta, cujas águas transbordavam do leito. E como um vento forte que entra pela janela à noite, derrubando tudo, o diário de Nadia foi soprado, espalhando suas folhas para que eu pudesse conhecer o seu segredo. E cada página que ele virava eu descobria uma história mais assombrosa do que a outra.

O pai dela era coronel do exército.Tinha atuado esplendidamente nos porões da ditadura militar em 1968. Tinha sido um dos mais sanguinários torturadores daquela época negra.
Nadia tinha somente dez anos quando ele a levou para assistir “o circo”. Era assim que ele chamava a tortura infringida àqueles heróis revolucionários. Ele dizia a Nadia que não eram pessoas, mas sim, bonecos desgovernados, precisando de lubrificação para falar e se mexer novamente. O nome do desgraçado era Ruffus, até o nome dele dava medo.

Quando ela fez quinze anos, ele entrou em seu quarto, fechou a porta e apagou a luz. Foi quando sua vida se tornou escura como a mais tenebrosa das noites. A mãe dela era uma mulher frágil e impotente. Quando percebeu o que acontecia a filha, não suportou o nó que apertava sua garganta. Deu um jeito no destino, tomou um frasco inteiro de soníferos para não acordar mais.

Nadia passou a servir o pai como mulher e aos dezenove anos engravidou. Ruffus fez de tudo para que ela abortasse. Dizia que seria uma criança retardada e doente e que não daria sossego a ele. Quando Nadia estava entrando nos nove meses de gravidez, ele encostou-a na parede e disse alto e claro que se fosse uma menina, seria dele também, assim como ela estava sendo.

Nadia telefonou para a única irmã de sua mãe, Ruth e conversaram por longo tempo, combinando uma maneira de socorrer aquele bebê. E numa noite, quando o seu pai já estava dormindo, ela juntou suas coisas e fugiu. A tia já estava preparada, tinha vendido a casa e comprado o sobrado que tinha sido a floricultura de uma senhora que estava se aposentando.

Nadia soube que a mãe tinha juntado um bom dinheiro. Escondido de Ruffus, ela e a tia planejaram o futuro de Nadia. Como o sobrado tinha uma boa edícula a tia se acomodou nela, ficando assim, perto da sobrinha. A tia foi quem fez o parto dela, ali mesmo, no sobrado. Conheciam as atrocidades de Ruffus e sabiam que se fossem para uma maternidade ele saberia, pois tinha informantes por todo canto.

Sônia nasceu linda e com saúde para a felicidade de Nadia. Agora ela estava com dez anos. Nadia não descuidada da filha nem por um instante. Levava e buscava a menina na escola e onde ela estivesse a mãe era sua sombra.

Um dia eu estava do lado de fora da loja pendurando um cartaz, quando um vento surgiu tão forte que fez voar o cartaz para longe.Eu me desequilibrei e cai da escadinha, dando de cara com dois coturnos. Era o mesmo sujeito que fez Nadia se esconder uma vez.

Perguntou por ela e eu quase gaguejei, dizendo que não estava. Ele virou-se num salto em direção à escada, subindo como um louco.

Nadia não estava, pois tinha ido buscar Sônia na escola. Ruffus ficou lá em cima em silêncio.
Nadia entrou na loja com Sônia que tomava um sorvete de casquinha. Eu estava atendendo um rapaz que comprava rosas para a namorada. Gritei para que Nadia esperasse. Ela virou-se para mim, mas Sônia subiu as escadas correndo. Eu não precisei dizer nada. Ela me olhou apavorada e se virou para a escada gritando o nome de Sônia.

Ruffus apareceu no alto da escada segurando Sônia pelo casaco. Ela tentava se desvencilhar de suas mãos, mas sem muito sucesso. Nesse instante, a porta principal se abriu com uma lufada de vento, derrubou alguns vasos e o sorvete das mãos de Sônia. Ela se soltou das garras de Ruffus que na tentativa de pegá-la novamente, pisou no sorvete caído e foi escorregando escada a baixo.

Rolou como um pacote desgovernado, parando com num baque seco e fatal, batendo a fronte na quina de um pedestal de mármore que apoiava grandes vasos de crisântemos. Enquanto ele caia, o vento carregava para longe o eco de sua voz até que tudo ficou calmo e em silêncio. O ar agora era uma leve brisa perfumada.

Foi o fim de Ruffus e o começo de uma vida nova para aquelas duas mulherzinhas adoráveis. Sim adoráveis, porque eu me casei com Nadia e adotei Sônia como filha.
Nadia está grávida e a tia Ruth continua cuidando de Sônia.

Ah! Sobre o concurso público? Não precisei mais.

FIM

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