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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O Sono

(Desconheço o autor)




Eu já não agüentava mais de tanto sono. Estava sem dormir fazia três dias, uma pane se instalava em meu cérebro zonzo e desacelerado. Minha cabeça bambeava entre o banco de meu carro e o volante. Parei no ponto de táxi onde faço ponto para tirar um cochilo. Senti meu corpo entorpecido, lasso, como se tivesse bebido vinho a manhã inteira. Entrava em estado alfa e meus sentidos reais se misturavam a irrealidade. Flashs de cenas que nunca tinha visto começaram a se formar como numa tela de cinema. Pessoas estranhas iam e vinham numa onda e eu era arrastado àquele centro de sonhos. Pensamentos abstratos suscitavam figuras insólitas. Estava nesse espaço povoado de imaginações visionárias quando escutei o toque de um tambor. Aquele estado de torpor foi sacudido e as visões angustiadas foram substituídas pelo tecido das imagens cotidianas. Vi um braço feminino surgir no espelho retrovisor. Fazia-me sinal que iria entrar. Sentou-se no banco traseiro me olhando de soslaio. Era uma linda mulher ruiva. Sua pele branca e macia transpirava um ar de dissolução. A voz era de urgência. Denunciava algo que eu pretendia impedir. Aquele corpo de mulher sentou-se no banco de trás procurando meus olhos através do espelho. Era uma visão fantástica que se misturava em definições contrapostas. Eu estava perdido em algum lugar entre o sono e a realidade. Essa arbitrariedade me fez acordar e definir o que se passava naquele momento.


Pedi desculpas pelo sono fora de hora e vi sua expressão de desconforto. Ela estava inquieta e apressada. Deu-me o roteiro olhando para todos os lados. Parecia fugir de algo. Era para o metrô o destino e acelerei como ela queria. Corria abrindo estrada, não respeitando nem os faróis fechados. Olhava para ela querendo sua aprovação... e a tinha com certeza, pois o brilho que seus olhos irradiavam não eram de medo ou desaprovação. Percebi algo estranho quando entramos num viaduto. Estávamos quase chegando ao destino e a vi se contorcer de aflição quando viu em outro carro um sujeito que gesticulava pedindo que parássemos. Ela, aflitíssima, pediu, quase chorando, que seguíssemos mais rápido. Vi naquela hora que estávamos fugindo. Acelerei como nunca tinha feito na cidade. O metrô já estava perto e minha angústia era de nunca mais poder vê-la.


Quando estávamos a uns cinqüenta metros da parada, olhei pelo espelho para ainda uma vez vê-la tão linda e desconcertada. O que aconteceu naquele momento ficou fora de minha razão. Ela pegou um vidro com um líquido esverdeado e, apertando o botão de spray, foi passando pelo corpo todo. O carro que nos perseguia estava quase encostando. Ela, desesperada, jogou o dinheiro da corrida no banco da frente e disse entre soluços:


- Ainda voltamos a nos ver!


E assim sem mais nem menos, deixando-me pasmo, com o coração descompassado, a vi se tornar impalpável, uma mera emanação fantasmagórica, completamente invisível. Evaporou-se no ar para o meu espanto. Eu não estava mais acreditando se realmente tinha feito aquela corrida maluca ou se acabara de acordar de um sono onde temos a impressão que rodamos em volta de um parafuso. Foi quando a porta de trás de meu carro se abriu. Senti um perfume resvalando o meu rosto e vi quando uma perna de mulher, sim, uma perna, linda, com sandália vermelha, saltou de meu carro entrando rapidamente no metrô. Foi tudo tão rápido que nem eu, nem seu perseguidor pudemos entender o que tinha acontecido.

5 Comentários:

  • Rachel, você anda sendo privilegiada pelos amigos que sopram ao seu ouvido. Não creio que seja irreal sua visão com a bela mulher e o taxista, pode mesm ocorrer sim. Quem sabe uma continuação, a mulher disse que voltariaa se encontrar com o taxista.
    Parabéns contista!

    Marta Peres

    Por Blogger universo em poesias, às 21 de outubro de 2008 04:55  

  • Rachel, você anda sendo privilegiada pelos amigos que sopram ao seu ouvido. Não creio que seja irreal sua visão com a bela mulher e o taxista, pode mesm ocorrer sim. Quem sabe uma continuação, a mulher disse que voltariaa se encontrar com o taxista.
    Parabéns contista!

    Marta Peres

    Por Blogger universo em poesias, às 21 de outubro de 2008 04:55  

  • Gostei mesmo!Mais uma vez PARABÉNS!

    DoceRachel é imparável, gosto mesmo do seu jeito de escrever!

    Por Blogger "Scacição", às 21 de outubro de 2008 05:00  

  • Por vezes por entre a amálgama de sentimentos e pessoas que nos trespassam a alma e o corpo, há sonhos transformados em realidade e cansaço transformado em sonho ou ainda sonhos reais no meio de coisa nenhuma.

    Os teus contos são sempre belos exercícios de revitalização da mente, nunca se esgotam numa mera leitura!

    E quantos sonhos com essa mulher, talvez acidentalmente ruiva, loura platinada ou simplesmente morena poderia um homem ter? Sedutor, outro epíteto que posso juntar ao teu 'Sono'.

    Estou atacado pelo sono, o verdadeiro e já vejo pernas bonitas a passearem pela casa, cujos pés, não menos bonitos dançam ao som do 'Red Shoes' de Michael Powell...

    Por Blogger Manuel Marques, às 21 de outubro de 2008 13:22  

  • Querida Rabibe;;amei ,como tudo que faz;;parabéns

    Por Blogger ivanet, às 30 de outubro de 2008 07:07  

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