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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Muro das Lamentações

Ilustração de Ben Heine


Ando sozinho nesta linha de fuga. O tempo se esvai apressado levantando uma fina poeira que reflete espectros na paisagem. Deixo para trás um caminho salpicado de tormentas. Cada dia um novo ardil explode no front triunfando entre a fumaça e o sangue de soldados e civis, que vêem seu cotidiano pelo avesso. Adivinho, a duras penas, o contorno do objeto rutilante que ofusca meus olhos cansados. Flutuo no céu esfumaçado que trás revelações escondidas. Nunca terá fim esse escaldar de sangue, esse inferno onde Deus é o aclamado e o mais ausente? Matadouros de inocentes foram instalados em pontos estratégicos e não podemos fazer nada. Sobre esta hora de agonia que antecede o clarão esperado, todos os outros ruídos ficam em suspenso. Um labirinto se forma entre a realidade e o sonho. Dentro dele, armadilhas estão quietas, esperando. Transpasso essa linha de fogo, querendo não ter visto tudo o que vi. Desejando tanto. Um céu noturno encobre o destino da cidade. Ao longe, nuvens cavalgam como loucas encobrindo o que ficou para trás. A lua, como um farol, mostra-me o novo caminho que se abre, e não fizemos nada por merecê-lo. Também, não tenho culpa, eu? Meu sangue se mistura ao do lobo, quando não interpreto a mensagem sublimar escondida nas lágrimas. A prata lunar se molda a minha cara incrédula. Atravesso um lago de sombras. Com meu coração cheio de vontade, avanço reconhecendo o quanto sou solitário e quase perdido ante essas nuvens irisadas de fogo. A noite se enche de meu cheiro de medo. Sou como um cipreste balançando ao vento, espalhando minha densa resina, marcando o caminho, agora ungido por minha vontade de semear momentos de paz. Vou buscar os novos dias que nos prometeram e deixar de ser um náufrago em minha própria terra. Vou nessa vaga luz que começa a manchar a claridade deste muro de lamentações que separa irmãos desde sempre.

3 Comentários:

  • O Muro das Lamentações é um retrato de sentimentos avassalador, parabéns escritora de mão cheia:)

    Para quando o livro de contos da DulceRachel? Encomendo já um com com autógrafo claro:)

    Por Blogger "Scacição", às 16 de janeiro de 2009 02:21  

  • Já havia comentado esta crónica no Jornalismo Político e agora que mais ninguém quer saber da Faixa de Gaza, das guerras e dos mortos sem saber porquê (excepto os poetas e tal, mas nós queremos sempre saber de tudo... e tudo é sempre pouco), digo-te o que sempre pensei, venha uma banda gástrica (em castelhano diz-se Banda de Gaza), que se encafuem todos lá dentro, árabes e israelitas, americanos e beltranos e com a ajuda do Super Homem cheio de pêlo na venta os enviem para o dia em que Kripton explodiu.

    Desculpa-me ir contra a corrente, mas é o que sinto destas coisas que nunca terão fim...

    Bjs

    Por Blogger Manuel Marques, às 3 de fevereiro de 2009 14:07  

  • Só uma pessoa dotada de tanta sensibilidade como vc, pode descrever visceralmente este sentimento impotente dos seres humanos contra os senhores das guerras...Parabéns...

    Por Blogger adonize, às 12 de fevereiro de 2009 15:10  

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