Muitas Moradas

Tenho muitas moradas
Em minha casa.
Em cada canto, uma recordação
De cristalina claridade.
Dentro da casa vivem estações,
Sob o ladrilho das palavras.
O jardim é da primavera.
Ali as folhas sussurram,
Espalham-se equivocando a realidade.
Aceitamos as coisas como vêem.
O outono das salas
Pesam e dizem mais do que dizem.
São doces recordações dos filhos,
Os desenhos rabiscados,
Ondulando pensamentos.
O verão saindo das panelas,
O espírito aventureiro dos temperos,
Capaz de viajar o mundo
Através dos pratos exóticos,
Do lenço na cabeça
Respirando o calor dos aromas.
Incendiamos.
O inverno caminha lentamente à noite
Para a cama, no quarto.
A memória se reserva
A uma existência de lembranças
Antes de dormir.
Contendas, desamor, sofrimento,
Tudo acaba onde o amor acontece
Para tecer as estações da casa.